terça-feira, 20 de setembro de 2016

Juliana

Resultado de imagem para neon tumblrNossos pés doem. Ontem foi outra dessas noites de balada e Juliana não gosta de sair sem salto, mesmo sabendo quanto sofrimento e arrependimento nos trará no dia seguinte. Ao menos ela lembrou-se de beber água dessa vez, nos poupando a enxaqueca e os enjoos costumeiros das segundas-feiras.

As segundas geralmente se resumem a dores e mensagens de desconhecidos com os quais ela não se lembra de ter trocados números, mas responde educadamente e, se achar que deve, dá a eles a chance de um encontro sóbrio. Encontros sóbrios a luz do dia é o nosso tipo favorito de encontro, e não só porque ela costuma preferir sapatilhas, dando uma folga a nossas pernas, mas por ser o processo muito mais complexo e com mais variáveis que beijos sob luzes de neon.

Juliana e o pretendente se sentam num café charmoso, ela pede chá, deixando agradecido o nosso sistema nervoso e ficando atenta a reapresentação do homem do outro lado da mesa. Se as energias batem, nosso cérebro se ilumina em ligações de memórias e engatam conversas sobre a vida e o universo. Em raras conexões, nosso estômago parece sentir cócegas como reflexo do êxtase daquele momento. Então sorrimos e nos sentimos bem por estar ali. E o que jurávamos ser borboletas no estômago, saem pela boca em forma de um carinhoso “bom dia” quando aquele ser humano raro liga na manhã seguinte. Embora Juliana nunca tenha sido de esperar por telefonemas, ela fica contente com a surpresa e aproveita ao máximo aquela sensação de quase amor.

Mas se sóbria não há conexão com o agora conhecido, tamborilamos os dedos na mesa, balançamos a perna e externamos ansiedade. Ela tenta, sozinha, disfarçar a inquietude que há do lado de cá e agarra-se a primeira oportunidade de ir embora sem magoar o rapaz. Ela sabe do nó seco que a garganta se dá em situações de rejeição e faz o máximo pra minimizar o desagrado causado.

Às vezes Juliana convida um desses semiconhecidos pra sua casa, nos inunda de vinho, entorpece nossos sentidos e nos deixa aproveitar. Sabe da nossa necessidade por arrepios e endorfina, toques e carícias e estímulos que nos agradam até o ápice da ocitocina... Nos entregamos tanto que ao fim quase nos desligamos. E ela sente quase todo o corpo grato, senão pelo coração, o chato que não se contenta com atos isentos de emoção.


Juliana não sente-se feliz, tampouco sente-se triste. Se a perguntarem, dirá que está satisfeita. “Feliz” é a definição que está guardando pra quando houver aquela conexão que ainda não experienciou, que será capaz de nos unir, sincronizar e harmonizar, a ponto de agradar até mesmo, e principalmente, nosso desgostoso coração.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Ode aos finais

Sempre achei as despedidas mais bonitas. Claro que a chegada e aquele abraço de matar saudades têm sua beleza, mas aquele olhar de pesar antecipado, aquele beijo pensado e demorado pra dizer sem palavras que a falta que a outra pessoa fará será imensa e que sofre desde já com sua ausência, é um apanhado dos melhores sonetos. Sabe aquele abraço que a gente se recusa a soltar porque sabe que será o último em muito tempo, talvez pra sempre? Ali sim está o ápice do romance.

Mas isso não é lá novidade, os músicos já sabem disso há tempos. Pegue como exemplo Vinícius de Moraes em sua canção mais famosa: "eu sei que vou sofrer a eterna desventura de viver a espera de viver ao lado teu por toda a minha vida". Todos concordam que é lindo e sabe por quê? Ora, porque é idealista. É-se impossível estragar o que só existe em pensamento: a convivência é harmoniosa, há sexo todos os dias, bem como café da manhã de comercial de margarina. E, na imaginação, a vida a dois que não pode ser corrompida, torna-se perfeita.

Mesmo as dores de cotovelo e imensuráveis períodos de foça têm juntos mais beleza que finais felizes. Sim, porque finais felizes consistem em pôr-do-sol a beira do lago, um beijo apaixonado e promessas de amarem-se a vida inteira. Ah! Nesse cenário até o mais frio dos homens é suscetível a jurar amor eterno. Agora visualize você o outro quadro: o indivíduo solitário em seu quarto, tendo como companhia apenas uma garrafa de bebida alcoólica e a voz da Adele em 21 ecoando das caixas de som. O relacionamento acabou, não há esperanças de retorno e ainda assim o ser humano está lá remoendo conversas e prometendo a si mesmo e a deus que continuará amando o outro não importa o que aconteça. Isso sim é amor, o resto é balela.

Amor é o que acontece na tempestade. Em dias ensolarados o que se vê é Consequência. Apenas construção de uma dezena de fatores a favor. O amor é o que acontece quando não se tem mais nada, nem mesmo um filete de raio de sol a entrar pelas frestas, e ainda assim a alma decide seguir amando.

E eu, veja só, que acreditava ser viciada em primeiros encontros, convoco ao fim desse texto um brinde aos finais. Afinal, o que poderia destruir o que está findo?

Salut!

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Náufrago

A afirmação de que todo homem é uma ilha nunca foi pra ele, tinha certeza disso. Ele, com seus vinte e poucos anos, meia duzia de tatuagens e vestuário discreto, tinha plena consciência de que tudo que vinha dos outros o afetava. Pro bem ou pro mal, toda e qualquer pessoa tinha o poder de mudar o seu dia.

Talvez fosse extra sensível, ou talvez todos fossem como ele e apenas eram melhores em camuflar isso. Negava-se a acreditar na maldade genuína, no egoismo cego, na indiferença humana. Pra ele, toda e qualquer pessoa é essencialmente boa.

Ainda assim, ele sofria. Mastigava e engolia cada olhar torto, palavra cuspida, dar de ombros. Os digiria em cólicas. Absorvia o que lhe era oferecido e transpirava esperança. Porque também acreditava que toda e qualquer pessoa merece o perdão.

E gritava. Bebia tonéis, findava maços, chutava lixeiras. Cantava alto suas dores às 3 h da madrugada na sacada do lar. Apagava as luzes. Ele sabia que toda e qualquer pessoa descansa na loucura.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

t.a.g



Cuido que essas minhas dores não são puramente físicas. Dói-me a cabeça e enrijece-me o pescoço em resposta aos anos de provação. Li uma vez “esse seu peso nas costas pode ser suas asas paradas”, e essa frase assim, numa metáfora simples, falou mais diretamente a mim que diversos poemas já lidos. Hoje, que sou se não um ser prensado pelas más experiências? Diariamente, permitindo-me ser sobreposto pelos medos e anseios, calando-me por puro recato débil.

Minhas asas atrofiam-se e, por negligência, deixo-as cessarem sem lutar. Vezenquando tenho o ímpeto de batê-las e tentar voar novamente, mas as dores me paralisam. Um impulso que se esvai tão rapidamente com o fracasso, que mal vale a tentativa.  Dói-me o peito e meu coração, que já não sabe que ritmo seguir nessa hora, suplica por descanso. E a respiração, pesada e custosa, impede-me de prosseguir.

Meus inimigos, muito pior que a minha frente, estão dentro de minha cabeça e têm a mim como maior aliado. Quando combatê-los me é caro, torna-se muito mais confortável a rendição e,  quando desistir parece o sensato a se fazer para sobreviver, você o faz. Não existe análise crítica quando o ar simplesmente não chega a seus pulmões e não se consegue pensar noutra coisa que não respirar.

Cuido que essas minhas dores não são físicas.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Zona de conforto


Sempre achei lindo isso de quem ama sem pudores. Quem na maior cara dura, sem escolher palavras bonitas ou evitar clichês, enche a boca e solta um “eu te amo” bem grande quantas vezes quiser. Admiro essa coragem deles. Doam-se sem cogitar o desengano, o descaminho, o desencontro. Pessoas que não parecem ter no dicionário a palavra Cautela. Esse povo doido. Românticos.

Mas essa admiração é aquela mesma que se tem quanto às quedas d’água. Olho de longe e sorrio bestificada, às vezes, logo depois me afasto. Bem sei que são águas velozes e imprevisíveis. Traiçoeiras e perigosas até pro mais experiente dos mergulhadores, que dirá pra mim, que não nado nem cachorrinho. Me afogaria em dois tempos. Deixo-as caírem por lá e fico só com o burburinho bom que se ouve daqui.

Não sei da roupa encharcada grudando no corpo, da massagem da água caindo-me nas costas e nem do silêncio da imersão no rio. Contudo, também não sei do frio congelante do vento soprando na pele molhada, do ser inevitavelmente arrastada pela correnteza e da apneia quando submergida.