A afirmação de que todo homem é uma ilha nunca foi pra ele, tinha certeza disso. Ele, com seus vinte e poucos anos, meia duzia de tatuagens e vestuário discreto, tinha plena consciência de que tudo que vinha dos outros o afetava. Pro bem ou pro mal, toda e qualquer pessoa tinha o poder de mudar o seu dia.
Talvez fosse extra sensível, ou talvez todos fossem como ele e apenas eram melhores em camuflar isso. Negava-se a acreditar na maldade genuína, no egoismo cego, na indiferença humana. Pra ele, toda e qualquer pessoa é essencialmente boa.
Ainda assim, ele sofria. Mastigava e engolia cada olhar torto, palavra cuspida, dar de ombros. Os digiria em cólicas. Absorvia o que lhe era oferecido e transpirava esperança. Porque também acreditava que toda e qualquer pessoa merece o perdão.
E gritava. Bebia tonéis, findava maços, chutava lixeiras. Cantava alto suas dores às 3 h da madrugada na sacada do lar. Apagava as luzes. Ele sabia que toda e qualquer pessoa descansa na loucura.
quinta-feira, 19 de novembro de 2015
terça-feira, 4 de novembro de 2014
t.a.g
Cuido que essas minhas dores não
são puramente físicas. Dói-me a cabeça e enrijece-me o pescoço em resposta aos
anos de provação. Li uma vez “esse seu peso nas costas pode ser suas asas
paradas”, e essa frase assim, numa metáfora simples, falou mais diretamente a
mim que diversos poemas já lidos. Hoje, que sou se não um ser prensado pelas
más experiências? Diariamente, permitindo-me ser sobreposto pelos medos e anseios, calando-me por
puro recato débil.
Minhas asas atrofiam-se e, por
negligência, deixo-as cessarem sem lutar. Vezenquando tenho o ímpeto de batê-las
e tentar voar novamente, mas as dores me paralisam. Um impulso que se esvai tão
rapidamente com o fracasso, que mal vale a tentativa. Dói-me o peito e meu coração, que já não sabe
que ritmo seguir nessa hora, suplica por descanso. E a respiração, pesada e
custosa, impede-me de prosseguir.
Meus inimigos, muito pior que a
minha frente, estão dentro de minha cabeça e têm a mim como maior aliado. Quando
combatê-los me é caro, torna-se muito mais confortável a rendição e, quando desistir parece o sensato a se fazer
para sobreviver, você o faz. Não existe análise crítica quando o ar
simplesmente não chega a seus pulmões e não se consegue pensar noutra coisa que
não respirar.
Cuido que essas minhas dores não
são físicas.
sexta-feira, 19 de setembro de 2014
Zona de conforto
Sempre achei lindo isso de quem
ama sem pudores. Quem na maior cara dura, sem escolher palavras bonitas ou
evitar clichês, enche a boca e solta um “eu te amo” bem grande quantas vezes
quiser. Admiro essa coragem deles. Doam-se sem cogitar o desengano, o descaminho,
o desencontro. Pessoas que não parecem ter no dicionário a palavra Cautela.
Esse povo doido. Românticos.
Mas essa admiração é aquela mesma
que se tem quanto às quedas d’água. Olho de longe e sorrio bestificada, às
vezes, logo depois me afasto. Bem sei que são águas velozes e imprevisíveis.
Traiçoeiras e perigosas até pro mais experiente dos mergulhadores, que dirá pra
mim, que não nado nem cachorrinho. Me afogaria em dois tempos. Deixo-as caírem
por lá e fico só com o burburinho bom que se ouve daqui.
Não sei da roupa encharcada
grudando no corpo, da massagem da água caindo-me nas costas e nem do silêncio
da imersão no rio. Contudo, também não sei do frio congelante do vento soprando
na pele molhada, do ser inevitavelmente arrastada pela correnteza e da apneia
quando submergida.
sábado, 2 de agosto de 2014
a banca
Envelhecer e descobrir que não existe
mesmo isso de esquecer, de desamar. Você apertar a mão de quem um dia foi seu
mundo inteiro e não sentir absolutamente nada. Não existe, cara. Você se
afasta, muda de ares e de amigos, deixa de revisitar lembranças e jura que está
acabado. Mas um belo dia, ao rever aquela pessoa, sente uma coisinha se
revirar, espreguiçar e acordar no peito: pronto, está vivo de novo.
Um aperto de mão de meio segundo
e uma avalanche de sentimentos vem em sua direção, perto e rápido demais pra
desviar, está feito, você é atingido. Quando se dá conta está forçando um
sorriso e olhando pros lados, tentando inviavelmente fugir. O coração bate
descompassado e torce pra que ninguém note que está se sentindo como no dia da
defesa do seu tcc, ansioso pra provar que esses semestres tiveram valia e você
realmente aprendeu a lição. Eu sei, foi exatamente como me senti.
Ela usava salto alto e um vestido justo turquesa,
de comprimento um pouco acima do joelho, que contrastava com tudo que gostava
de vestir e contrariava sua personalidade despojada que tanto admirei. Cabelos
soltos em cachos minuciosamente modelados para durar toda a noite e batom
vermelho para arrematar. Dizem que se deve vestir bem quando for a um encontro
e ainda melhor se for encontrar um ex. Estava linda, com todas as curvas que me
lembrava, mas o acessório que ostentava me fez questionar essa teoria: um
acompanhante.
Eu, o cara solteiro que vai ao
casamento do amigo azarar as primas da noiva. Não sei se é o que todos estavam pensando, mas
é o que achei que ela pensaria de mim. Derrotado, ainda sozinho depois de todos
esses anos. Impressão que só piorou quando disse em seguida “Esse é o Otário,
meu noivo”. O Otário apertou minha mão mais forte que o comum enquanto passava
o braço em volta da cintura dela, o que me fez desejar que ele tivesse um
aneurisma naquele instante e caísse duro no chão, um trágico e feliz final. Mas
apenas o assisti tirá-la para dançar e caminharem juntos para o meio do salão.
Não conversamos mais naquele dia
e nem em outro algum. Na semana seguinte fiquei me perguntando o porquê de todo
aquele desconforto, do ciúme, da frustração por não poder ter novamente, da
tristeza ao vê-la sair pela porta. Li o perfil público dela no Facebook de
ponta a ponta e procurei seu rosto nas fotos do casamento postadas mais tarde.
Buscava o registro de um olhar furtivo na minha direção ou um sorriso amarelo
que denunciasse que estava tão desconfortável quanto eu. Queria uma pista de
que estava secretamente infeliz e sentindo minha falta. Não encontrei.
Pensei várias vezes em ligar,
marcar uma cerveja, reconquistá-la aos pouquinhos. Pensei que foi um erro tê-la
deixado escapar e que ainda estava profundamente apaixonado por ela. Nada fiz. Após um tempo, deixei de pensar naquela festa.
Senti aquela coisinha no peito revirar e adormecer de novo, quieta. Acredito
que, se a ver mais uma vez, a coisinha vai se agitar e fazer algum barulho, mas
nunca terá força suficiente pra me fazer discar o número dela de novo. Essa se foi
há tempo demais, quando decidimos juntos que não dávamos mais certo. Segui.
O nome do noivo dela é Tarcísio.
Mas, já me conformei, será sempre Otário pra mim.
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
Eu, falando sozinha
“Eu não escrevo mais. Todas as
vezes que tenho um fio de inspiração e tento, acontece algo que a sequestra de
mim. Seja alguém que resolve espichar a conversa ou um vizinho ouvindo música
ruim. Tudo atravessa as paredes e atinge minha criatividade. É uma lástima,
pois necessito escrever. É assim que faço as pazes comigo. Não precisa ser bom,
só precisa me satisfazer. E se faço algo que não gosto fico de mal comigo. É
difícil conviver com quem se tem uma richa, não há pra onde fugir. Meu
desprazer me encara pela manhã, quando abro os olhos, e testemunha minha luta
com a insônia. Às vezes até acho que ele torce por ela. Mas o que se pode
fazer? Tudo que tenho são palavras amontoadas sem um mínimo de poesia. Sem
alma. Forçar-me a escrever me traz ainda mais desgosto. A única ideia que paira
em minha mente é o suicídio literário. A melhor que tenho em meses e sequer sei
como executá-la. É isso, é o fim.”
Hoje tentei escrever uma canção.
Sentei-me a escrivaninha e me posicionei confortavelmente em frente ao computador.
Batuquei o teclado por uns minutos e lembrei-me que nunca fui bom de rima.
Tentei transformar em algum tipo de poesia contemporânea, mas me faltou
lirismo. Era só um amontoado de palavras sem beleza literária. Deletei.
Perguntei-me onde será que poderia ter deixado meu eu poético e, do alto da
minha preguiça já característica, desisti de procurar e quis inventar um novo.
Outro novinho em folha, que não
me viesse arranhado e carregado de experiências desgostosas, que de tão marcado
por antigos desafetos não fosse capaz de deitar uma linha sequer sem
mencioná-los. Um eu poético ingênuo e curioso, que ignorasse as maldades
passadas e falasse de tudo como quem experiencia algo pela primeira vez. Buscava
em mim um poeta criança e temia jamais encontrá-lo.
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
Chaira
Iluminado apenas pelo abajur, estava sentado ao lado da cama. Uma poltrona cor de rosa, feita pra alguém com pernas bem mais curtas que as
dele, ornava com todo o resto da decoração. Enquanto observava a filha dormir,
lembrava-se de si mesmo em roupas respingadas de tinta Pink, caprichosamente
preparando o quarto para a chegada da primogênita. Já eram passados cinco anos
agora e o amor por aquele pedaço de gente só havia aumentado ainda mais.
Ela tinha muito da mãe. A começar
pelos olhos, cor de mel, altivos e curiosos. O tipo de criança que, se não
mostrar a ela como funciona, vai descobrir por si mesma, e que, depois de
desvendado o mistério, desinteressa-se logo e procura por algo mais desafiador.
Nunca quebrara um brinquedo, mas também jamais brincara com um por mais de uma
semana. Afinal, tinha uma casa e quintal inteiros para explorar.
Quem a via assim, longe em sonhos,
não imaginava quão esperta e sensível era. Já havia percebido, antes mesmo
dele, a mudança no comportamento da mãe. “Mamãe está cheirosa” , dizia, “Mamãe
está bonita”. Chegou mesmo a se queixar ao pai uma vez “Mamãe não brinca mais
muito comigo”. Talvez, se a tivesse ouvido, suas roupas não estariam manchadas
de sangue agora. Talvez não tivesse deixado chegar a esse ponto e então doeria
menos. Talvez.
Quando decidiu procurar um
detetive para investigar a esposa não estava certo se era o que devia fazer.
Não poderia pedir o conselho de um amigo, esse não é o tipo de coisa que se
conta a alguém. Não queria ter a confirmação de suas suspeitas, mas não conseguia
mais conviver com a dúvida. Então foi até o escritório no centro da cidade e
pagou pelo serviço sujo e eficiente. Não demorou pra que tivesse em mãos as
provas da infidelidade da mulher que amava. Naquele dia não voltou pra casa e
no dia seguinte não foi trabalhar.
Ao chegar, mais tarde que o habitual,
a mulher estava na cozinha guardando as sobras do jantar. Ele pegou uma garrafa
d’água na geladeira sem ser indagado pelo atraso ou por suas roupas serem as
mesmas do dia anterior. Ela não se importava. Perguntou como tinha sido o dia
dela, que definiu como cansativo e disse que já ia subir para dormir. Estava
sempre cansada agora.
Ele perguntou onde tinha ido. Ela
mentiu. Mesmo que tivesse dito a verdade, não acreditaria em nada que saísse de
sua boca. Perguntou o que costumava fazer na semana. Ela foi superficial,
parecia mais distante que nunca. Ele disse o nome do amante e perguntou de onde
o conhecia. Ela disse não saber daquele nome. Perguntou o porquê da traição.
Ela negou e disse que o amava. Ele deitou as fotos prova em cima do balcão. Ela
emudeceu.
A casa estava quieta. Só se podia
ouvir a respiração dos dois, de pé na cozinha. Ambos ofegantes. Ele observava a
esposa. Estava linda como sempre fora. Ainda magra, vestida com camisa e uma saia
justa um pouco acima dos joelhos. Cabelos presos, maquiagem leve. Ela tinha um
ar jovial que a maternidade não levou. Sem dúvida uma mulher atraente. Pôs-se a
imaginar as mãos de outro acariciando aquelas pernas, entrelaçando os dedos por
entre os cabelos da nuca e a beijando os lábios com desejo. Imaginou-a gostando
disso. Suspirando e sussurrando um nome que não o dele. Roçando a pele desnuda
e cravando as unhas em êxtase nas costas de outro homem.
Ele ouvia pensamentos e ruídos dentro de sua cabeça. Todos rápidos, simultâneos e ininteligíveis. Podia sentir todo o corpo vibrar em ira, como jamais antes. Era como se pudesse sentir o sangue correr e ebulir dentro de suas veias. E contrastando com toda a algazarra dentro dele, ela seguia muda. E sua inércia e palidez o enfureciam ainda mais.
Estendeu o braço a fim de
alcançar o faqueiro em cima do balcão. Viu-a recuar e desculpar-se repetidas
vezes, dando para trás cada passo que ele dava para frente. Implorando seu
perdão. Ao parar num canto do cômodo, ainda não conseguia ver arrependimento em
seus olhos. Era apenas medo. Como um animal pequeno, acuado pelo predador, com a
feição em desespero. Nada que o impedisse de empunhar a faca e dar o primeiro golpe,
perfurando-lhe a barriga sem resistência, enquanto ouvi-a soltar um grito de
dor. Nos cinco golpes seguintes não ouviu ou sentiu nada. Quando parou, notou a
manga da camisa, outrora branca, vermelha, embebida em sangue.
Notou que a filha estava
encolhida na cama. Levantou-se, atravessou o quarto e pegou mais uma coberta na
parte de cima do guarda-roupa. Voltou, cobriu-a e sorriu enquanto lhe
acariciava os cabelos escuros, como os dele. Estava de fato mais frio que o costumeiro
aquela noite, mas ele estranhamente não sentia ou não se incomodava com isso.
Estava anestesiado. Recordou o dia em que trouxe as mulheres de sua vida da
maternidade. Como todos os descreviam como uma família radiante. Todo o
primeiro mês foi um entra e sai de pessoas da casa. Parentes e amigos com
presentes e tudo que pais de primeira viagem precisam para sobreviver àquela
experiência.
E o que todas aquelas pessoas diriam
se pudessem vê-los agora? Uma série de acusações e discursos moralistas os
aguardava. Apontariam para sua garotinha e a olhariam com pena. Mais tarde, lhe
encheriam a cabeça com julgamentos sobre seus pais e como ela deveria deixar de
amá-los. Plantariam o ódio e a revolta na garota que hoje é tão doce aos olhos
do pai. Não poderia confiar ou entregá-la a quem não saberia como agir. Então
de súbito, soube o que fazer. Sentou-se na beirada da cama, sorrateiramente
para não acordá-la, e beijou-lhe a testa em despedida. Pegou um dos
travesseiros que ali estavam e pressionou-o contra o rosto da filha. O manteve
assim, impedindo sua respiração, e apertando-lhe o peito para que não se
debatesse tanto. Talvez tenha ouvido a menina gritar o pai por socorro uma vez,
não tinha certeza.
Feito, ajeitou a garota na cama e
cobriu-a de novo, como se repousasse. Apagou o abajur, deixou o quarto e
fechou a porta. Percorreu lentamente o corredor até o quarto do casal. Entrou, acendeu as
luzes e trancou a porta. Caminhou até o banheiro e parou em frente a pia,
encarando-se no espelho. Estava exausto. Parecia vinte anos mais velho. As
rugas estavam mais marcadas, os olhos injetados e o rosto escurecido pela barba
por fazer. Abriu o armário, pegou a navalha e testou o fio de corte no polegar.
Estava bem afiado. Fechou a porta do armário, olhou fixamente para o espelho, elevou
ligeiramente o queixo e passou a lâmina num corte horizontal fundo e preciso no
pescoço. Enquanto agonizava, caído no chão de mármore, pensou consigo mesmo
satisfeito: está tudo bem agora.
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
O que preciso dizer
Qualquer coisa entre morrer e
estar vivo, é como me sinto. Você vai chamar de clichê ou subjugar minha dor,
eu sei como é. Aliás, você sabe bem como é. Você tem seu jeito de entrar na
vida das pessoas, fazê-las gostarem de ti e depois abandoná-las sem mais nem
menos. Depois, considera todos amantes do drama, fracos e exagerados. Mas você
não é muito melhor que qualquer um desses.
Vive seus dias se fazendo de
forte, se achando a dona da razão e sob controle das próprias emoções. Só que
se esquece de que ninguém manda no coração. Pra se encaixar no seu modo de ver
as coisas, você não pode controlar a reação do seu cérebro frente a estímulos
externos. Se os cientistas conhecem pouquíssimo do funcionamento de toda essa
massa cinzenta aí dentro, por que acha que justo você teria aprendido, com a
pouca idade que tem, a manipular todas as respostas da sua?
Talvez doa saber, mas você não é
Deus. Não ache que simplesmente por dizer algumas palavras as coisas irão mudar,
que o que eu sinto por você vai mudar. Sentimentos são mais complexos que isso.
Não podemos desligar e ligar de novo quando for mais conveniente. Quisera eu que
fosse assim, daí não precisaríamos passar por isso. Deus, como eu queria poder religar
o que sentia por mim.
Você não tem noção de como tenho
pensado em você nesses dias. Mesmo não tendo nada físico seu pra guardar, você
me assombra. E o que me assusta mais é que eu gosto disso. Eu não quero deixar
de pensar em você, não quero te esquecer. Não quero que sua lembrança vá embora
como se nunca tivéssemos nos conhecido. Eu não quero perder o que ainda tenho
de você. Eu quero ter mais. Eu prefiro viver sabendo que tive você e perdi, do
que nunca ter tido você comigo. Mesmo que isso nunca mais se repita, preciso
lembrar que um dia fui a razão do seu sorriso.
O que tenho pra dizer mesmo é que
tudo que eu mais quero agora é estar com você. E, se você sente ao menos um
pouco a minha falta, se em alguma hora do seu dia se lembra do tempo que
passamos juntos e se sente bem com isso, me deixe mostrar que posso fazer bem
melhor. Sei que não posso fazer você me amar, mas eu sei que posso te fazer
feliz. Então me deixe pelo menos tentar. Não haverá um só dia em que não
estarei feliz por estar contigo e que eu não me esforce pra te fazer sentir o
mesmo. Não me deixe com o peso de saber o que poderia ter sido e não tê-lo
vivido.
terça-feira, 8 de outubro de 2013
Carta aberta à amiga que um dia existiu
Por onde será que tem andado? Que
rumos sua vida levou? Se vive com os pais ainda na mesma casa, ou casou-se e
teve uma filha. Pensei ter te visto há algumas semanas, sentada no último banco
da condução. Devia ser mesmo você. Quando passei a catraca e te vi, também
olhando pra mim, estremeci surpresa. Susto
acho que é a palavra mais adequada.
Faz anos desde a última vez, mas
não gosto de me lembrar dela. Se quer saber, gosto de lembrar como éramos antes
de toda aquela confusão. Quando nos conhecemos e éramos as mais inteligentes da
classe. Sempre queridas pelos professores e com as melhores notas de provas e
trabalhos. Você sempre foi mais aplicada, eu tinha sorte. Você ganhava a
medalha de melhor aluna, e eu o respeito dos colegas.
Gosto de lembrar-me como, mesmo
em escolas diferentes, nos encontrávamos ao menos uma vez por semana pra nos
colocar a par dos acontecimentos: o primeiro beijo, o primeiro amor, as
descobertas que vinham com isso. Você sempre parecia reluzente ao me contar
suas histórias e empolgada em ouvir as minhas. Minhas aventuras de final de
semana. Você costumava rir e me rotular de malvada por esnobar uns garotos.
Passávamos horas assim.
Trocamos livros, presentes,
segredos. Tínhamos até o projeto de morarmos “sozinhas juntas” um dia. Ficávamos
mirabolando os futuros dias cheios e divertidos que teríamos na nossa casa.
Desde festas às sextas-feiras a namorados passando a noite. O carro que
dividiríamos e a carona que daríamos a todos os amigos a caminho da balada. Ia
ser incrível e eu mal podia esperar pra viver tudo aquilo, mas sequer chegamos
perto.
Eu não sei o que pode ter
acontecido e te levado a agir daquela forma comigo. O que, de tão grave, te fez
esquecer ou passar por cima de nossa cumplicidade a ponto de me magoar
tanto. Ouvi diversas teorias a respeito,
acredite, de parentes e amigos. Especulavam ciúme, inveja, até loucura (e essa
era a mais repetida). Eu as ouvia, ponderava e concordava com algumas de tão
machucada que estava. Mas no meu íntimo, ainda hoje, renego todas elas. Não
consigo acreditar que você seja uma pessoa má.
Quis te dizer isso aquele dia no
ônibus. Naqueles segundos que fiquei de pé, observando que não mudara quase
nada nesses anos, a não ser por parecer mais madura – e triste. Quis te dizer
que não guardo ressentimento ou rancor algum sobre o que passou. Te dar um
abraço e perguntar se estava bem. Não queria saber mais seus motivos, já te
desculpei há muito tempo, mas queria te ouvir pedir desculpas pra acabarmos
logo com tudo isso.
Quis e pensei em fazer tanta
coisa e nada fiz. Limitei-me a sentar num dos bancos da frente e relembrar,
assustada demais pra andar até o fim do corredor. Quando enfim tomei coragem para olhar pra
trás, você já havia saltado e levado consigo minha esperança de resolução.
Fiquei desapontada por um momento e aliviada em seguida. Está bem assim. Tive
uma amizade, aprendi muito com ela e vou guardá-la para sempre comigo. Tive a
oportunidade de ver que está seguindo sua vida e vou fazer exatamente o mesmo.
Felicidades, de sua amiga de Vicente
Amato.
quinta-feira, 27 de junho de 2013
Minha casa
Conservo a pintura da fachada e abafo
os barulhos internos, para não perturbar os vizinhos. Ora, um bom isolamento
acústico garante a privacidade e mantém as aparências. Ninguém quer ou precisa
saber em que pé está a bagunça ali dentro.
Vezenquando, abro a janela para
entrar luz e renovar o ar. Tomando cuidado de não as deixar abertas por muito
tempo. Alguém pode olhar demais e notar desarranjos. Um porta-retratos virado,
papéis amontoados, um dominó desfalcado ou um quebra-cabeça interrompido. Um
lençol cobrindo a roupa suja – que um dia hei de lavar.
É preciso estar atenta. Se
desconfio de um olhar espichado apresso-me a trancar as janelas. Imagine só que
vexame descobrirem que sou falha em administrar o lugar que habito. Melhor não
arriscar.
As vidraças estão sempre limpas e
o carpete “bem-vindo” aprumado e convidativo. Há também um confortável jogo de
cadeiras na varanda, perfeito para jogar conversa fora e nada mais. Ofereço o
exterior, aqui dentro só a mim cabe.
Aqui dentro, me expresso entre os
limites do concreto. Liberdade medida e autocensurada.
Os móveis ocupam o quarto, souvenires
caem na estante em companhia a fotos ignoradas. Música vívida sai do stereo em
contraste ao silêncio mórbido do cômodo. Paredes pálidas, escritos empoeirados,
ruídos medíocres. Onde outrora havia arte, cantos inexpressivos. Tudo coberto
por luz branca e gélida. Um conjunto vazio.
Parece inconcebível, mas depois que se acostuma, é confortável ser assim.
segunda-feira, 29 de abril de 2013
Caribé
Sob o olhar de Kurt Cobain
Meus olhos cortam as sombras
Do meu quarto sem janelas
Do meu livro de novelas
Ao som da Jane Fonda
Sob a luz do sol de março
Gasto a sola do all star preto
Marco as costas em nadador
Sobre pedras e ladrilhos cor
Por anéis, cigarros e segredos
Pela orla do Velho Chico
Sob abraços semi-conhecidos
De semi-leigos da história
Que se dissipam na memória
Aprecio meu tempo perdido
________________________________________
05 de Março de 2010, Petrolina - PE
Quando eu sabia ainda menos.
Meus olhos cortam as sombras
Do meu quarto sem janelas
Do meu livro de novelas
Ao som da Jane Fonda
Sob a luz do sol de março
Gasto a sola do all star preto
Marco as costas em nadador
Sobre pedras e ladrilhos cor
Por anéis, cigarros e segredos
Pela orla do Velho Chico
Sob abraços semi-conhecidos
De semi-leigos da história
Que se dissipam na memória
Aprecio meu tempo perdido
________________________________________
05 de Março de 2010, Petrolina - PE
Quando eu sabia ainda menos.
Não penso, logo sinto
Tua
mão assume minha pele, percorre minhas curvas. Desarruma-me os cabelos - e o juízo. Redesenha
minhas pernas, me aperta a nuca e me puxa pra perto. E me invade. E me une a ti
de tal forma que deixamos de ser dois. Lança-se mão de toda racionalidade. Cabeça
vazia, peito cheio. Que sou eu se não uma extensão do sentir? Do tato, do
desejo, do límbico? Que dirá do reptílico? Te bebo, me tomas. Nos temos. Que
queremos mais? Então me sente, me devora e ignora toda regra da boa escrita e
bom cidadão. Te prendo em mim e não largo. - Não penso, logo sinto.
sexta-feira, 26 de abril de 2013
Ele
Eu o amo, sabe? Não, não tem como
você saber. Acredito que ninguém mais tenha tido a sorte de chegar ao nível do
que sinto hoje. Uns dizem que é dependência, mas eu não ligo. Por que me
importaria em depender de ficar do lado de alguém quando, na verdade, estar lá
é tudo o que eu quero? Se eu me sinto satisfeita, preenchida, extasiada? Se a
presença dele me faz o bem que nenhuma outra coisa pode me fazer? Não existe
nada que traga a felicidade que ele me traz.
Quando eu acordo, meu primeiro
pensamento é se ele está bem, se dormiu bem, se está de mau ou bom humor. Eu
programo minha rotina de modo que coincida com a dele. Para que eu possa
almoçar e jantar nos mesmos horários que ele. Me levanto cedo pra que eu possa
vê-lo sair e desejar um bom dia. Para que o sinta cada vez mais perto de mim.
Eu demonstro o meu amor o tempo
todo. Por cartas, bilhetes, mensagens. Gosto que saiba que tem alguém que se
importa muito e que mataria por ele se necessário. Quero que tenha certeza que
está sendo amado tanto quanto me ama. Ele não demonstra da mesma forma, claro. Tem
seu próprio jeito de me amar, e eu também gosto desse.
Ele é tímido e muito atarefado,
não tem muito tempo para essas manifestações de afeto, mas quando o faz é
inesquecível. Sempre me emociono. Sou meio boba, sabe? Aliás, com ele estou
sempre boba. Ele me faz perder o chão, as palavras, o ar. Quando está por perto,
minhas pernas ficam bambas e me sinto longe de todo e qualquer problema, porque
estou segura ao seu lado.
Meu amor por ele não se abala. E
é eterno, eu sei. Mesmo com os problemas que vimos tendo, nós vamos nos acertar
e tudo ficará bem novamente. Por algum motivo, ultimamente ele vem se afastando
de mim, mas sei que reverteremos essa nossa crise. Todo casal passa por uma
fase difícil, em que não têm certeza se devem realmente ficar juntos. Bom, eu
tenho certeza suficiente por nós dois e vou provar que estou certa. Ele só está
um pouco confuso, com medo de se envolver mais. Homens têm dessas coisas.
Nós tivemos sim uma discussão. Casais
em crise costumam brigar, é normal. Eu me alterei, confesso. Mas ele estava
dizendo coisas sem sentido, não havia verdade nas palavras que saiam de sua
boca. Acho que estava tão assustado com o que sente que inventou motivos pra
fugir de si mesmo. Chegou ao ponto de negar nosso amor.
Você sabe o quanto isso dói? O quanto
machuca se entregar tanto a uma pessoa e ela desdenhar teus sentimentos? Você
sabe como é ter seu amor rejeitado? Você se sente diminuída, desvalorizada,
humilhada. Cria-se uma ferida grande demais para conter. Eu estava sangrando por
dentro e enfurecida por ele estar mentindo pra mim daquele modo. Eu tinha de
fazê-lo parar, mas não conseguiria sem que o fizesse sentir a mesma dor que eu
estava sentindo. Ele precisava saber, entende?
Eu não sei bem como fiz, não me
lembro. Estava cega pela mágoa que ele me causou. Mas ao vê-lo desacordado eu
voltei a mim. Mais calma pude compreender que era como uma criança, apavorado
com tudo o que estava sentindo. Eu já o perdoei. As enfermeiras disseram que irá
se recuperar e, quando voltar, eu estarei aqui. Esperando por ele. Meus amigos,
e os dele também, estão com muito ciúme e ficam mentindo pra mim, inventando
histórias a respeito de nós dois. Eu os perdoo também. Em meu coração não há
espaço pra ódio, rancor ou sentimentos ruins, apenas para o amor que sinto por
ele. E não vou deixá-lo ir. Nunca.
_________________________________________
Inspirado no filme "A la folie... pas du tou"
sábado, 13 de abril de 2013
irônico, não?
Alguma vez já se sentiu tão feliz
a ponto de ter medo? As coisas melhoram instantaneamente e permanecem assim
sem que você consiga encontrar um motivo lógico para aquilo ter acontecido.
Você tem o mesmo emprego, mesma casa, tem os mesmos amigos, mora na mesma
vizinhança de sempre e simplesmente tudo passa a ter um brilho diferente.
Você acorda pela manhã e não se
importa do despertador ter cortado a melhor parte do sonho porque sente que, na
verdade, a melhor parte você pode começar a fazer agora, na vida real. O céu está
mais azul, as pessoas estão mais bonitas e os pets estão encantadores. Você
deseja bom dia pro sol porque, subitamente, passou a enxergar beleza na
natureza e nos detalhes do seu dia.
Sua rotina não tem mais o peso de
sempre, virou prazer. Suas expectativas a respeito do mundo tornaram-se
incomparavelmente melhores. É como se o tempo passasse num ritmo diferente e
você pudesse notar a graça de estar vivo. Você se sente feliz quase que apenas
pelo fato de existir. E, quando se dá conta, percebe o quão assustador isso é.
Digo, não há nada de errado em
estar contente, o que parece errado é não saber bem o que te levou a isso. Algo
sustenta sua felicidade e não há como impedi-lo de ir porque não se faz ideia
do que seja tal coisa.
Não temos medo de ser felizes.
Temos medo de perder a felicidade e não conseguir recuperá-la tão cedo ou, quem
sabe, nunca mais. Não sabemos quão triste somos até experimentarmos o
verdadeiro riso. E agora, cientes de nosso estado de felicidade, como lidar com
a possibilidade iminente de perdê-lo?
Você começa a lutar contra um
inimigo invisível. Passa estragar dias de sorriso com o receio infundado de ver
o que tem ser destruído por algo inexistente. E acaba por desmoroná-lo por si
mesmo. Irônico, não? Você não quer que acabe e se torna o próprio causador do
fim.
Não, não há reviravolta dessa vez. É
isso.
quarta-feira, 27 de março de 2013
Tua ausência
Às vezes chego em casa e subo diretamente ao quarto, achando
que te encontrarei deitada, assistindo TV. Abomino minha mente por me pregar
tais peças. Como quando o gato derruba a louça na pia e eu imagino que você
está de volta à cozinha, preparando sua especialidade e único prato “macarrão
ao molho rosa”. Você nunca me contou como consegue deixá-lo dessa cor e eu não
te encontro mais lá. Apenas tua ausência é o que se apresenta a mim, todos os
dias, em todos os cantos da casa.
Eu nunca entendi bem a definição de vazio. Achava saber
quando lia esses novos autores ou ouvia O Livro dos Dias, mas só realmente
soube após te perder. Descobri o quanto o vazio preenche o vago e nos deixa sem
alternativa, senão encará-lo, dia após dia.
Eu não sabia que o nada podia ser
grande assim.
Refaço sempre teu caminho costumeiro, visito teu escritório.
Leio teus cadernos de novo e de novo. Tentativas de te sentir perto ou ouvir
tua voz novamente. Escuto suas músicas favoritas para me avivar à memória o
teu canto descompassado e tua desconstrução da dança. Hoje, de longe, o mais
belo show que vi.
À noite, antes de dormir, sucumbo ao peso que sustentei ao
longo das horas, inventando uma força que já não existe. Deixo sangrar. O pesar sincero machuca ainda menos que o mais belo riso imposto. Então choro.
E, em algum momento antes do sono, em meu inconsciente debilitado, sei que você
vem me confortar. E é exatamente isso que me faz levantar pela manhã. Só você
pode.
Ignorando a todos os conselhos vindos de quem não entende a minha
dor, vivo em tua morte. Porque é tudo o que me deixou, e, se tivesse de viver
sem nada teu, então assim eu morreria.
Eles não sabem o que dizem.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
Ensaio
Recobrando à minha essência,
talvez tola e débil,
tomo do lápis e papel deixados.
Outrora sagrados,
sutilmente reassumem seu lugar
Pedem licença para voltar
à intimidade que sufoquei.
Ignorando não-sei-quê de mim
que sofri a perda sem notá-lo ir.
Me resigno a deixar fluir
Com um afago terno do retorno tardio.
Lentamente sinto se esvair
O pesar que me assolava peito
Deixa-me, escorre-me entre os dedos
e deita-se dentre essas linhas.
talvez tola e débil,
tomo do lápis e papel deixados.
Outrora sagrados,
sutilmente reassumem seu lugar
Pedem licença para voltar
à intimidade que sufoquei.
Ignorando não-sei-quê de mim
que sofri a perda sem notá-lo ir.
Me resigno a deixar fluir
Com um afago terno do retorno tardio.
Lentamente sinto se esvair
O pesar que me assolava peito
Deixa-me, escorre-me entre os dedos
e deita-se dentre essas linhas.
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
Chá&Café
Pare e observe. Eu não aguento
isso. Por que você não enxerga que estou aqui me corroendo? Você sabe, eu me
faço de forte. Finjo que não me importo, que não sinto falta de te olhar nos
olhos. Mas achei que ficasse meio óbvio que estou desconfortável quando resolvo
ouvir música no segundo em que você pega um livro. Quando respondo
monossilabicamente todas as suas tentativas de conversa casual. Quando eu corro
pra janela só pra ver você descendo a rua depois que bate a porta. Quando
imploro muda pra que você coloque um fim nisso tudo. Quando... Até quando? Esses
não somos nós.
Quando eu ouço música você
levanta e me tira pra dançar. Quando você está fatigado, eu te abraço e digo
como tudo vai ficar bem. Quando estou emburrada, você me faz rir dizendo que
fico linda ressaltando minhas rugas. Quando você lê, eu te trago café e me
recosto no seu ombro. Quando eu chego, você me traz chá e deita comigo no sofá.
Quando você sai para o trabalho, eu te levo até a porta e me despeço com um
beijo. Você está vendo? Esses somos nós.
Somos melodramáticos e felizes – ou éramos.
Agora somos qualquer coisa muito
distante de “felizes”. Você fica sentado na poltrona, tomando um café horrível que
você mesmo fez. Pega seu livro de finanças e finge estar absorto, mas eu sei
que o franzido na sua testa não é de concentração. Quase posso ouvir seus
pensamentos de tão alto que gritam em sua mente. Gostaria de poder ouvir. Sei
que está pensando em nós e em como a cada dia o clima fica mais pesado,
beirando o insustentável. Nossa descrença é quase palpável pairando no ar.
Gostaria mesmo de poder ouvir seus pensamentos. Assim saberia se pra você a
solução é consertar ou jogar fora. Adquirir uma nova. Só em pensar me vejo
nervosa.
Nervosa. Nervosa define bem o que
tenho sido ultimamente. Estou sempre a flor da pele e a culpa é sua/nossa.
Qualquer um lê no meu rosto como a sua distância presente me faz mal. Cada poro
da minha pele exala frustração. E se isso não basta para enxergarem, minhas olheiras
denunciam que há algo de errado. Como consegue dormir? Por mais que eu faça,
não consigo. Passo a noite velando teu sono, vendo teu peito subir e descer. Me
perguntando quando foi que começamos a nos distanciar, se é que realmente há um
evento exato no tempo que inaugurou o início do nosso fim. Se foi quando eu
arranhei o seu carro ou você o meu disco. O que foi que arranhou a nossa
existência perfeita? Não, não estou exagerando. Nós éramos perfeitos. Ao menos
você sempre foi pra mim.
Eu tenho uma ideia. Eu descarto
meu orgulho, você o seu senso de justiça. Fiquemos bem. Vamos fingir que nada
aconteceu. Você nunca gritou comigo, eu nunca te empurrei. Tudo isso não passou
de um sonho ruim. Quando chegar, eu faço chá e um café fresquinho só pra você.
Você me conta como foi seu dia e o quanto sentiu vontade de me ligar no meio da
reunião pra contar como é hilário o Siqueira praticando seu “portunhol” com os
sócios. E então você me beija e diz que está na hora de subirmos pro nosso
quarto pra não dormirmos. Pra matar essa falta que eu estou de você. Ou pra
levarmos o colchão pra sala, pedir pizza e ficarmos vendo filmes repetidos que
nunca enjoamos.
Eu aceito a ideia. Você podia
aceitar também. Nós somos passíveis de conserto. Porque temos muito a conviver
e aprender um sobre o outro. Eu vou ver esse seu topete perder volume e você
vai me ver perder certas curvas. E vamos nos amar ainda mais pra compensar essa
perda. Comecemos de novo, nem precisa falar nada. Façamos um acordo calado. É só
chegar e pegar o que ainda é seu e será por muito tempo.
domingo, 9 de dezembro de 2012
Perfil
Quero um amor maduro, do tipo que se sabe as fraquezas e
limitações. Um amor real, sem fantasia. Não quero que chame a mim de Julieta e
eu a você de Romeu. Quero um amor que não invente pseudônimos e tenha completa
ciência do que é. Pra ser simplesmente José e Maria, completos em si. E
verdadeiros. Porque o amor pode até ser
sonho, mas ele só existe e dá certo quando estamos acordados. Não dá pra bancar
o sonâmbulo e andar por aí fingindo perfeição.
Quero um amor de coração aberto, mas, sobretudo, os olhos e a mente.
domingo, 2 de dezembro de 2012
Meu último sobre você
Eu tento. Começo várias frases de
impacto e de repente travo. Ficam meus dedos pousados em cima do teclado
esperando pela volta de uma palavra que traduza os meus pensamentos tão seus.
Mas ela não vem. Deveria ver meu desktop. Ele é só um monte de rascunhos do Word
de no máximo três linhas. Tão confusos que nem eu mesma saberia te dizer o que
senti quando os redigi. E juntos devem fazer ainda menos sentido.
Sei lá. Te transcrevo já há
tanto tempo que acho que desaprendi a usar qualquer outro tema. Falar sobre
natureza, música, livros ou até mesmo sobre novos amores não seria sincero. Talvez
eu tente escrever sobre o som dos Bee Gees que vaza da casa do meu vizinho.
Cotidiano – ou, em outras palavras, minha vida chata sem você.
Olha só você aqui de novo. É um
vício, um mau hábito. E, como você sabe, maus hábitos sempre voltam. Esse
hábito assim mal vindo, mas muito bem instalado. Hábito pouco cordial que só
ocupa espaço e já não tem mais serventia.
Quer saber? Te exorcizo de mim.
Você já não dá poema, crônica, música, conto ou prosa. Nem versinho infantil de
quatro estrofes ou cantiga de ciranda. Você não é mais matéria prima de nada
bonito. Porque eu já suguei tudo que tinha pra sugar do que sobrou de você nos
meus dias. Eu excedi minha cota de você e a caneta já tinha percebido isso
há muito tempo. Só faltava eu. Mas agora que me dei conta me despeço com pesar
e sem remorso.
Adeus inspiração.
sábado, 3 de novembro de 2012
o que li num estranho na rua
Desaprendeu a viver.
Tem os olhos perdidos e a maturidade emocional de quem perdeu alguém que ama,
sem nunca ter amado. Não conversa por nada ter mais a dizer. Por não
querer repetir o que todos já disseram. Nem falar de assuntos sem alma. Se
encontra já sem espírito de fé. Se chora, é por instinto. Se gosta, é porque
aprendeu que devia ser assim. Convenção social. Convive por não ter
escolha ou por preguiça de escolher. Beija e abraça mecanicamente, como quem retribui
o “bom dia” ao vendedor. Sussurra pro vento, ora pra um deus que não crê. Comove-se por convencimento, sem compaixão. Se doa sem dor. Não se dá. Não se vê. Não se
ouve. Desaprendeu a sentir e receia não mais querer aprender.
...
Só vem.
Não marque hora, dia
Lugar ou flor na lapela
Não se marque.
Não se guarde.
Pelo o que não disser
Não se amargue.
Eu não vou.
Não me aguarde.
Então vem.
Enquanto o futuro não assusta
E o passado não assombra.
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
ideia suicida
A ideia está lá. Martelando em sua cabeça a solução para todos as suas angústias. Mas ela não a aceita, não pode. É cruel, é estúpido, é inconcebível, é inaceitável. Rola na cama, toma banhos de horas, dá voltas no apartamento. Nem se lembra quando foi a última vez que vira a rua. Não se lembra a última vez que comera. Sabia que emagrecera muito e que deveria alimentar-se antes que a inanição se encarregasse de pôr um fim em tudo. Ela não consegue. Não sente gosto, cheiro. Sua garganta se fechara a exemplo de seu coração. O café acabara, assim como os cigarros e seu armário de destilados beira a escassez. Logo não terá mais nada para distrai-la. Até a amada coleção de seus autores prediletos nada mais dizem. Desligara o telefone. Não por não querer falar com alguém, mas por medo de que ele não tocasse. Prefere a dúvida. Escreve. Escreve por horas, incessantemente. Registra tudo que lhe vem a mente. Talvez na esperança de que alguém invada na madrugada, olhe os escritos e a conforte, diga que a compreende e que tudo ficará bem.
Em uma manhã acordou cedo, abriu as janelas, religou o telefone, organizou a casa e deitou-se no sofá - onde passou toda a tarde. Ao cair da noite notou que não ouvira o telefone ou campainha tocarem. Sequer uma batida na porta ou passos no corredor. Notou que ninguém leu o que escrevera e que, se o tivessem feito, não entenderiam. Nada. Trancou as portas e janelas novamente e encheu a banheira. Desta vez não escrevera suas ideias. Não deixou carta.
sábado, 13 de outubro de 2012
argila
Não posso mais. Viver seu sonho
não é o que eu tinha planejado pra mim. Ainda menos um sonho assim, sem
glamour. Que eu não tenho papel sequer de coadjuvante. Mas você, você tem todos
os papéis.
Eu sou só sua estátua de argila.
Você me molda como lhe convém. Imagina que sou mármore, bronze. Idealiza o
material que não tem. E o ama, desesperadamente o ama. Juras e promessas de um
amor inabalável supostamente destinado a mim. Mas eu não sou bronze. E não importa quantas vezes eu tente me formar e te convencer que sou argila, vermelha, material pouco nobre, mas muito versátil. Você ignora.
Porque no seu sonho não cabem
palavras de outrem, ainda que o queira manter dentro dele.
terça-feira, 2 de outubro de 2012
visita-me
Senta aqui do meu lado. Ou fica aí mesmo. O importante é que
você me ouça. Ou não ouça, mas fique aqui, nessa sala. Você nem precisa
comentar o que eu disser. É que eu estive pensando umas coisas aqui comigo e
deu vontade de expor. Andei pensando sobre mim, claro, mas ainda mais sobre
você e eu. Sobre como estou sempre te sugando até a última gota de afeto, de
desejo, de atenção. Sobre como estou sempre solicitando que você se doe, que
ame mais. Você faz o possível, eu sei. Você vem sempre que pode e traz flores e
chocolate. E tem chovido tanto esses dias, e São Paulo já é um caos sem a chuva,
com ela então. E você tem me ligado nesses dias chuvosos em que o trânsito não
te permite chegar. Mas não serve, não é igual. Quero ver teu rosto com aquela
expressão incomodada por eu ter te feito atravessar a cidade. Essa expressão
que se desfaz com o primeiro beijo quente que te dou. Quero te ver chegar, largar as chaves na mesa
e vir me abraçar. Quero sentir teu perfume mesmo ele estando misturado a cigarros
e fumaça de escapamento. Porque esse é você. E te quero por completo, todos os
dias. Porque não vai ter mais ninguém que vai me olhar carinhosamente enquanto
desafino I Will Always Love You. Ou pelo menos alguém que eu acredite que está
mesmo gostando. Porque não vai ter mais ninguém que eu ame tanto detestar o
gosto musical. E você se veste mal e comete erros gramaticais às vezes. Mas
isso te torna único. E se você é único, como poderei te substituir, entende? O que
eu queria mesmo dizer é que estou com um medo sem tamanho de você se afastar. E
que vou te requisitar sempre mais e mais. Eu sou insatisfeita. Tenho uma sede
enorme do que me faz bem. Você me faz bem.
sábado, 15 de setembro de 2012
chamada a cobrar-se
- Oi.
- Quem é?
- Tanto tempo sem
nos falarmos que se esqueceu da minha voz.
- Não acredito.
Você!? Como vão as coisas??
- Vão bem. Muito
bem até. Esse ano concluo minha faculdade e vão me efetivar no estágio. Legal,
né?
- Muito! Meus
parabéns. Fico feliz que esteja bem.
- Obrigado. Me
surpreende ainda se importar.
- Não diga isso..
Sempre te quis bem e por perto. Você que não quis.
- Ta, ta. Passou,
esquece, certo? E você, como está? Vocês?
- Bem. Ótimos.
- Só?
- Ora, estamos
bem. Fazendo planos.
- hmm...planos?
- Sim. Tem certeza
de que quer falar sobre isso?
- E por que não?
Somos amigos agora. Gosto de saber da sua vida.
- Não sei. É que
não sei em que pé você e eu estamos. Não quero te chatear. Sem querer parecer
presunçosa, não sei se te dói falar sobre isso.
- Não se preocupe,
não vai. Se te conforta, estou saindo com alguém. Nada sério ainda, mas ela é
legal.
- Bom! Que bom!
Você devia mesmo namorar.
- Devia, né?
- Sim! Aliás,
quero conhecê-la. Traga-a aqui em casa. Programa de casal, o que acha?
- Acho que não é
uma boa ideia. Não é nada sério, lembra? Não quero apressar as coisas. Vocês se
dariam bem, mas é melhor não, por enquanto.
- Certo. Tudo bem,
então. Mas não a deixe escapar, sim? Se ela é assim tão legal..
- Pare. Por favor.
- Parar com o que?
- De me empurrar
pra outro relacionamento. Não precisa fazer isso. Não vou atrapalhar o de
vocês. Talvez eu não devesse ter ligado.
- Não, me
desculpe. É que a cena que protagonizou na última vez em que nos vimos ainda está
na minha cabeça. Não consigo desvincular aquela imagem de você. Me desculpe,
acho ótimo que tenha superado e... Me desculpe de novo. Fui presunçosa.
- Tudo bem. Agora
está com vergonha, não está?
- Morrendo.
- Imagino. Lembro
de você vermelha nessas situações. Você detesta estar errada.
- É, detesto! Me
conhece bem.
- Bom, foram quase
dois anos. É quase inevitável.
- É...
(...)
- E os planos?
- Planos?
- Sim, os planos
que disse estarem fazendo.
- Ah, sim. Nossos
planos.
Dentro de
algumas semanas pretendo me mudar pra casa dele e...
- Mas já?
- Sim. Já estamos
há oito meses juntos e tem ficado cada vez mais sério.
- Não acha
precipitado?
- Por que seria?
- Sei lá. Só acho
que talvez não seja tempo suficiente para se conhecer alguém. Só estou
preocupado com sua segurança.
- Não precisa. Ele
é uma cara legal. E, além do mais, não vou vender meu apartamento, só aluga-lo.
Se algo der errado, volto atrás.
- Se você acha. Te desejo sorte e toda a felicidade do mundo!
- Obrigada. Me deseje amor, que o resto vem.
- Amor então. Em abundância.
- Pra você também.
- Obrigado. Bem, acho que estou perto dele. E mesmo que eu esteja,
que um dia me case e você precise de mim pra te livrar de algum babaca que te
atormentar, é só chamar, viu?
- Vi. Valeu. Chamarei sim, mas espero não precisar.
- Espero que não também.
- Ah, pretendo sair do país também.
- E por quê?
- Bem, vamos morar juntos e ele está prestes a ser promovido. Passará
mais tempo fora que aqui. Decidimos que seria melhor assim.
- E o seu trabalho no jornal?
- Ele vai me ajudar a conseguir outro por lá.
- Então é mesmo sério? Você o ama perdidamente?
- Ah...bem, é claro. Mas que pergunta! Amo sim.
- Legal.
- Legal.
(...)
- Escuta, preciso desligar. Ele vem jantar aqui hoje e eu vou
cozinhar.
- Sério? O que vai preparar?
- Não sei ainda. Olha, preciso mesmo desligar.
- Ok. Foi bom falar contigo de novo. Até qualquer outro dia.
- Até. Se cuida.
Promoção
para o exterior? Não podia competir com isso, definitivamente.
Olhou os livros de química empoeirados na
estante. Abandonados na mesma posição desde o dia em que largara a faculdade. Sublinhou
alguns números após uma olhada rápida nos classificados e pousou o jornal ao
lado do copo de vodka quase seco. Tomou banho, barbeou-se, se vestiu e
perfumou. Ia sair. Havia ao menos uma verdade naquela ligação: devia mesmo
arranjar uma namorada.
sábado, 1 de setembro de 2012
não estou
É impressionante como reparam que não estou aqui.
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
marcos e maria
Mesmo na maioridade, ainda meio moleque,
Mergulhava no mar indómito, muito amostrado,
Pra chamar o olhar feminino.
E as meninas amavam.
Principalmente Maria
Que se maquiava e punha o melhor maiô.
Mas Marcos nem ligava
Maria é menina mimada, dizia, Não é pra mim.
Almejo mulheres como Marylin Moroe.
E mangava da moça.
Ela, magoada, saia amuada.
“Mas Marcos há de me querer namorar e eu não mais!”.
Em março, Marcos mudou-se para Macapá.
Em menos meses que o imaginado
Voltou a Maresias e viu Maria
Já mulher formada e formosa.
Maroto, foi mostrar-se homem mudado.
E ela mostrou-lhe a aliança de diamante e ouro maciço.
Agora era amigada com Aroldo Alves, o arquiteto.
Habitava na Alameda Antonio de Assis
E ia de avião à Austrália, África, Alemanha, Alpes e Argentina.
É, Marcos. Mudam o mundo e a menina.
sábado, 25 de agosto de 2012
3 por 10
O menino cresceu alto e forte.
Feição imponente, voz de locutor.
Infelicidade. Vítima da própria sorte,
Ele agora vende bala no metrô.
ponto
Se me pedir, eu espero. Espero mesmo. Talvez não sozinha. Relação vazia e nada mais. Diga que não pode agora. Que está com alguém e esse alguém morreria se o largasse agora. Diga que te ameaçam homicídio. Diga que está atarefado, focado na carreira, que não pode ou não quer se envolver agora. Peça pra eu te desejar em segredo, calada. Peça pra que eu te guarde fingindo indiferença. Ou peça pra que eu vá. Pra que te deixe em paz. Diga que não me quer por perto. Que não há próximos capítulos nessa história. Que, sinceramente, fui um bom passatempo. Ou que me amou demais e agora acabou como um poço que seca. Diga que quer me ver mais duas ou três noites e então fim. Ou me peça pra que te espere. Mas, por favor, diga algo. Coloque um ponto final ou reticências. Não me deixe aqui assim, desiludida e esperançosa, com a sua interrogação.
quinta-feira, 23 de agosto de 2012
sessenta minutos
Chove, não chove.
Vai chover amanhã. Talvez faça sol.
Talvez o meu pai venha, talvez não volte.
Talvez eu aprenda, ou só ignore.
As elipses formadas na sombra.
Na rede, debaixo da árvore
Do rochedo.
Qualquer coisa
Sobre caos e medo.
Preguiça de rimar, de pensar.
Apetite do nada.
Fardo que não pesa
Nem incomoda, na verdade.
Joguei fora o calendário.
E umas fotos reveladas.
Outras eu só deletei
Tentando esquecer a idade.
E minha memória quando volta?
Diz aí, doutor, que eu to bem.
Só estou brincando de soltar palavras.
Ver o que sai depois de juntas.
Misticismo infantil, metido a besta.
Fica assim, então.
Nosso tempo acabou.
A gente se vê próxima sexta.
Não, ninguém vai morrer não.
Semana que vem eu te explico
Se der. Se eu recordar.
Preciso me lembrar que não somos amigos.
O que somos mesmo?
Ah, eu sou chuva, pode ser?
Hoje eu chovo, ou não chovo.
Semana que vem, mesmo horário, eu volto
Ou talvez não.
segunda-feira, 23 de julho de 2012
desculpas
Escuta.
Você precisa me ouvir. Não pode simplesmente decidir que acabou e
virar as costas sem ao menos me dar uma chance de me explicar. Eu
senti tanto a sua falta. Eu não sei mais ficar sozinho. Vamos, não
pode ser o fim agora. E tudo o que já vivemos? Você não pode
ignorar o fato de que fomos felizes, de que somos felizes juntos.
Essas coisas acontecem, mas temos de mostrar a todos que nosso amor é
maior que isso. Que nós dois somos mais importantes que isso. Vem
cá, sente-se ao meu lado. Não posso acreditar que não sinta minha
falta. Seja mais tolerante, sim? Não vai acontecer de novo. Aquele
dia eu não estava em mim. Os caras chegaram aqui com cerveja e me
arrastaram pra lá. Eu sei que se não tivesse bebido não
aconteceria. Eu juro que não a procurei, ela me provocou. Poxa, eu
sou homem. Tente entender o meu lado. Você foi pra tão longe e
demorou tanto. Não, não. Não estou colocando a culpa em você. Me
ouça. Tudo bem, você está certa. Esqueça o que eu disse. Não,
não vá embora. Ainda precisamos conversar. Não atravesse essa
porta, por favor. Volte aqui. Me desculpe. Me desculpe por essas
frases feitas e pouco sinceras. Por favor, olha pra mim. Sei que não
estou fazendo sentido. É que a possibilidade de te perder me deixa
apavorado, irracional. Me dê mais uma chance! Deixe-me começar de
novo. Eu te amo tanto. Por favor, me perdoe. Eu te traí.quinta-feira, 19 de julho de 2012
lembranças, joplin e chardonnay II

Acho que vou trocar meu carro. Já cansei dele mesmo. Meu Opala Metálico Azul adquirido pra te impressionar, só porque amava a tal música. Eu era jovem e fodido e ainda assim economizei e o comprei por você. Deve ser verdade essa conversa de que deixamos de ser racionais quando apaixonados. Nos tornamos perfeitos idiotas. De qualquer forma, o Opala já não faz mais tanto sentido. Eu te vejo nele. Na verdade, ele transpira você. Mantê-lo é me torturar. De que me adianta lembrar teu sorriso se já não sou a razão dele? Quando nos deixou me privou do teu sorriso. E do meu. Sinto falta dele. Sinto falta de te ver dançando pela casa ao som de Dezesseis. Sinto falta de brigar contigo por mexer nos meus LPs. Sinto falta de te telefonar, mas não posso. Não vou. Admito que sinto sua falta. E que inferno é sentir isso. Vou me livrar do carro e do seu fantasma. Comprar outro esportivo. Quem sabe um Porche agora que posso? Sim, um porche. Assim teria uma desculpa pra te ligar e até fazer referência à Mercedes-Benz. Você ficaria feliz? Talvez percebesse que tenho ouvido sua Janis. Que tenho te ouvido. Que tenho me importado com essa ausência tão presente.
conselho de mãe
Dói um bocado no começo, e no meio. Vai machucar por um bom tempo na verdade. Mas há beleza aí. Nesse retiro que se faz em busca da própria paz de espírito. Nesse período que se está sentindo pena de si mesmo e esquecendo que se é importante para uma porção de pessoas. Faz bem. Não queira pular fases, nem também se estagnar. Há tempos já de diz que é necessário dar tempo ao tempo. O que se esquece de dizer é que o segundo "tempo" refere-se àquele de cada um.
Você vai chorar. Vai sentir ódio dele, dela, de si mesma até. Vai querer ficar na cama por dias. Outras vezes vai querer ver gente, conhecer lugares. E nesses lugares, vai encontrar algo que te lembre a sua dor e vai recomeçar o ciclo. Mas cada recomeço de ciclo trará uma lição adquirida no anterior. E as sensações deste já não serão tão intensas quantos as do primeiro.
Então aceite que acabou. De nada adianta negar a realidade. Ouça a música de vocês repetidas vezes até que ela perca o sentido. A ofereça a um amigo em um momento alegre. Ressignifique lugares, objetos, coisas que tenham feito juntos. E não se esqueça de queimar as cartas. Sem relê-las. Te traria falsas esperanças. E tudo que precisa agora é das verdadeiras.
Ignore, no entanto, o conselho mais tolo e mais falado. O de tentar esquecer. Não se apaga parte da vida assim. Isso roubaria o seu sentido. Não se esqueça de quem já te fez feliz, de quem adicionou tanto à sua história. Você aprendeu muito, não foi? Então por que excluir isso? Apenas filtre os pensamentos que te puxarem pra baixo. Esses você deleta. E o que sobrar daí, você molda e transforma numa das coisas mais preciosas que se pode ter e que nada levará de você: SABEDORIA.
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