sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Zona de conforto


Sempre achei lindo isso de quem ama sem pudores. Quem na maior cara dura, sem escolher palavras bonitas ou evitar clichês, enche a boca e solta um “eu te amo” bem grande quantas vezes quiser. Admiro essa coragem deles. Doam-se sem cogitar o desengano, o descaminho, o desencontro. Pessoas que não parecem ter no dicionário a palavra Cautela. Esse povo doido. Românticos.

Mas essa admiração é aquela mesma que se tem quanto às quedas d’água. Olho de longe e sorrio bestificada, às vezes, logo depois me afasto. Bem sei que são águas velozes e imprevisíveis. Traiçoeiras e perigosas até pro mais experiente dos mergulhadores, que dirá pra mim, que não nado nem cachorrinho. Me afogaria em dois tempos. Deixo-as caírem por lá e fico só com o burburinho bom que se ouve daqui.

Não sei da roupa encharcada grudando no corpo, da massagem da água caindo-me nas costas e nem do silêncio da imersão no rio. Contudo, também não sei do frio congelante do vento soprando na pele molhada, do ser inevitavelmente arrastada pela correnteza e da apneia quando submergida.

sábado, 2 de agosto de 2014

a banca

Envelhecer e descobrir que não existe mesmo isso de esquecer, de desamar. Você apertar a mão de quem um dia foi seu mundo inteiro e não sentir absolutamente nada. Não existe, cara. Você se afasta, muda de ares e de amigos, deixa de revisitar lembranças e jura que está acabado. Mas um belo dia, ao rever aquela pessoa, sente uma coisinha se revirar, espreguiçar e acordar no peito: pronto, está vivo de novo.

Um aperto de mão de meio segundo e uma avalanche de sentimentos vem em sua direção, perto e rápido demais pra desviar, está feito, você é atingido. Quando se dá conta está forçando um sorriso e olhando pros lados, tentando inviavelmente fugir. O coração bate descompassado e torce pra que ninguém note que está se sentindo como no dia da defesa do seu tcc, ansioso pra provar que esses semestres tiveram valia e você realmente aprendeu a lição. Eu sei, foi exatamente como me senti.

Ela usava salto alto e um vestido justo turquesa, de comprimento um pouco acima do joelho, que contrastava com tudo que gostava de vestir e contrariava sua personalidade despojada que tanto admirei. Cabelos soltos em cachos minuciosamente modelados para durar toda a noite e batom vermelho para arrematar. Dizem que se deve vestir bem quando for a um encontro e ainda melhor se for encontrar um ex. Estava linda, com todas as curvas que me lembrava, mas o acessório que ostentava me fez questionar essa teoria: um acompanhante.

Eu, o cara solteiro que vai ao casamento do amigo azarar as primas da noiva.  Não sei se é o que todos estavam pensando, mas é o que achei que ela pensaria de mim. Derrotado, ainda sozinho depois de todos esses anos. Impressão que só piorou quando disse em seguida “Esse é o Otário, meu noivo”. O Otário apertou minha mão mais forte que o comum enquanto passava o braço em volta da cintura dela, o que me fez desejar que ele tivesse um aneurisma naquele instante e caísse duro no chão, um trágico e feliz final. Mas apenas o assisti tirá-la para dançar e caminharem juntos para o meio do salão.

Não conversamos mais naquele dia e nem em outro algum. Na semana seguinte fiquei me perguntando o porquê de todo aquele desconforto, do ciúme, da frustração por não poder ter novamente, da tristeza ao vê-la sair pela porta. Li o perfil público dela no Facebook de ponta a ponta e procurei seu rosto nas fotos do casamento postadas mais tarde. Buscava o registro de um olhar furtivo na minha direção ou um sorriso amarelo que denunciasse que estava tão desconfortável quanto eu. Queria uma pista de que estava secretamente infeliz e sentindo minha falta.  Não encontrei.

Pensei várias vezes em ligar, marcar uma cerveja, reconquistá-la aos pouquinhos. Pensei que foi um erro tê-la deixado escapar e que ainda estava profundamente apaixonado por ela. Nada fiz.  Após um tempo, deixei de pensar naquela festa. Senti aquela coisinha no peito revirar e adormecer de novo, quieta. Acredito que, se a ver mais uma vez, a coisinha vai se agitar e fazer algum barulho, mas nunca terá força suficiente pra me fazer discar o número dela de novo. Essa se foi há tempo demais, quando decidimos juntos que não dávamos mais certo. Segui.


O nome do noivo dela é Tarcísio. Mas, já me conformei, será sempre Otário pra mim.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Eu, falando sozinha

“Eu não escrevo mais. Todas as vezes que tenho um fio de inspiração e tento, acontece algo que a sequestra de mim. Seja alguém que resolve espichar a conversa ou um vizinho ouvindo música ruim. Tudo atravessa as paredes e atinge minha criatividade. É uma lástima, pois necessito escrever. É assim que faço as pazes comigo. Não precisa ser bom, só precisa me satisfazer. E se faço algo que não gosto fico de mal comigo. É difícil conviver com quem se tem uma richa, não há pra onde fugir. Meu desprazer me encara pela manhã, quando abro os olhos, e testemunha minha luta com a insônia. Às vezes até acho que ele torce por ela. Mas o que se pode fazer? Tudo que tenho são palavras amontoadas sem um mínimo de poesia. Sem alma. Forçar-me a escrever me traz ainda mais desgosto. A única ideia que paira em minha mente é o suicídio literário. A melhor que tenho em meses e sequer sei como executá-la. É isso, é o fim.”

Hoje tentei escrever uma canção. Sentei-me a escrivaninha e me posicionei confortavelmente em frente ao computador. Batuquei o teclado por uns minutos e lembrei-me que nunca fui bom de rima. Tentei transformar em algum tipo de poesia contemporânea, mas me faltou lirismo. Era só um amontoado de palavras sem beleza literária. Deletei. Perguntei-me onde será que poderia ter deixado meu eu poético e, do alto da minha preguiça já característica, desisti de procurar e quis inventar um novo.

Outro novinho em folha, que não me viesse arranhado e carregado de experiências desgostosas, que de tão marcado por antigos desafetos não fosse capaz de deitar uma linha sequer sem mencioná-los. Um eu poético ingênuo e curioso, que ignorasse as maldades passadas e falasse de tudo como quem experiencia algo pela primeira vez. Buscava em mim um poeta criança e temia jamais encontrá-lo.


quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Chaira

Iluminado apenas pelo abajur, estava sentado ao lado da cama. Uma poltrona cor de rosa, feita pra alguém com pernas bem mais curtas que as dele, ornava com todo o resto da decoração. Enquanto observava a filha dormir, lembrava-se de si mesmo em roupas respingadas de tinta Pink, caprichosamente preparando o quarto para a chegada da primogênita. Já eram passados cinco anos agora e o amor por aquele pedaço de gente só havia aumentado ainda mais.

Ela tinha muito da mãe. A começar pelos olhos, cor de mel, altivos e curiosos. O tipo de criança que, se não mostrar a ela como funciona, vai descobrir por si mesma, e que, depois de desvendado o mistério, desinteressa-se logo e procura por algo mais desafiador. Nunca quebrara um brinquedo, mas também jamais brincara com um por mais de uma semana. Afinal, tinha uma casa e quintal inteiros para explorar.

Quem a via assim, longe em sonhos, não imaginava quão esperta e sensível era. Já havia percebido, antes mesmo dele, a mudança no comportamento da mãe. “Mamãe está cheirosa” , dizia, “Mamãe está bonita”. Chegou mesmo a se queixar ao pai uma vez “Mamãe não brinca mais muito comigo”. Talvez, se a tivesse ouvido, suas roupas não estariam manchadas de sangue agora. Talvez não tivesse deixado chegar a esse ponto e então doeria menos. Talvez.


Quando decidiu procurar um detetive para investigar a esposa não estava certo se era o que devia fazer. Não poderia pedir o conselho de um amigo, esse não é o tipo de coisa que se conta a alguém. Não queria ter a confirmação de suas suspeitas, mas não conseguia mais conviver com a dúvida. Então foi até o escritório no centro da cidade e pagou pelo serviço sujo e eficiente. Não demorou pra que tivesse em mãos as provas da infidelidade da mulher que amava. Naquele dia não voltou pra casa e no dia seguinte não foi trabalhar.

Ao chegar, mais tarde que o habitual, a mulher estava na cozinha guardando as sobras do jantar. Ele pegou uma garrafa d’água na geladeira sem ser indagado pelo atraso ou por suas roupas serem as mesmas do dia anterior. Ela não se importava. Perguntou como tinha sido o dia dela, que definiu como cansativo e disse que já ia subir para dormir. Estava sempre cansada agora.

Ele perguntou onde tinha ido. Ela mentiu. Mesmo que tivesse dito a verdade, não acreditaria em nada que saísse de sua boca. Perguntou o que costumava fazer na semana. Ela foi superficial, parecia mais distante que nunca. Ele disse o nome do amante e perguntou de onde o conhecia. Ela disse não saber daquele nome. Perguntou o porquê da traição. Ela negou e disse que o amava. Ele deitou as fotos prova em cima do balcão. Ela emudeceu.

A casa estava quieta. Só se podia ouvir a respiração dos dois, de pé na cozinha. Ambos ofegantes. Ele observava a esposa. Estava linda como sempre fora. Ainda magra, vestida com camisa e uma saia justa um pouco acima dos joelhos. Cabelos presos, maquiagem leve. Ela tinha um ar jovial que a maternidade não levou. Sem dúvida uma mulher atraente. Pôs-se a imaginar as mãos de outro acariciando aquelas pernas, entrelaçando os dedos por entre os cabelos da nuca e a beijando os lábios com desejo. Imaginou-a gostando disso. Suspirando e sussurrando um nome que não o dele. Roçando a pele desnuda e cravando as unhas em êxtase nas costas de outro homem.

Ele ouvia pensamentos e ruídos dentro de sua cabeça. Todos rápidos, simultâneos e ininteligíveis. Podia sentir todo o corpo vibrar em ira, como jamais antes. Era como se pudesse sentir o sangue correr e ebulir dentro de suas veias. E contrastando com toda a algazarra dentro dele, ela seguia muda. E sua inércia e palidez o enfureciam ainda mais.

Estendeu o braço a fim de alcançar o faqueiro em cima do balcão. Viu-a recuar e desculpar-se repetidas vezes, dando para trás cada passo que ele dava para frente. Implorando seu perdão. Ao parar num canto do cômodo, ainda não conseguia ver arrependimento em seus olhos. Era apenas medo. Como um animal pequeno, acuado pelo predador, com a feição em desespero. Nada que o impedisse de empunhar a faca e dar o primeiro golpe, perfurando-lhe a barriga sem resistência, enquanto ouvi-a soltar um grito de dor. Nos cinco golpes seguintes não ouviu ou sentiu nada. Quando parou, notou a manga da camisa, outrora branca, vermelha, embebida em sangue.


Notou que a filha estava encolhida na cama. Levantou-se, atravessou o quarto e pegou mais uma coberta na parte de cima do guarda-roupa. Voltou, cobriu-a e sorriu enquanto lhe acariciava os cabelos escuros, como os dele. Estava de fato mais frio que o costumeiro aquela noite, mas ele estranhamente não sentia ou não se incomodava com isso. Estava anestesiado. Recordou o dia em que trouxe as mulheres de sua vida da maternidade. Como todos os descreviam como uma família radiante. Todo o primeiro mês foi um entra e sai de pessoas da casa. Parentes e amigos com presentes e tudo que pais de primeira viagem precisam para sobreviver àquela experiência.

E o que todas aquelas pessoas diriam se pudessem vê-los agora? Uma série de acusações e discursos moralistas os aguardava. Apontariam para sua garotinha e a olhariam com pena. Mais tarde, lhe encheriam a cabeça com julgamentos sobre seus pais e como ela deveria deixar de amá-los. Plantariam o ódio e a revolta na garota que hoje é tão doce aos olhos do pai. Não poderia confiar ou entregá-la a quem não saberia como agir. Então de súbito, soube o que fazer. Sentou-se na beirada da cama, sorrateiramente para não acordá-la, e beijou-lhe a testa em despedida. Pegou um dos travesseiros que ali estavam e pressionou-o contra o rosto da filha. O manteve assim, impedindo sua respiração, e apertando-lhe o peito para que não se debatesse tanto. Talvez tenha ouvido a menina gritar o pai por socorro uma vez, não tinha certeza.

Feito, ajeitou a garota na cama e cobriu-a de novo, como se repousasse. Apagou o abajur, deixou o quarto e fechou a porta. Percorreu lentamente o corredor até o quarto do casal. Entrou, acendeu as luzes e trancou a porta. Caminhou até o banheiro e parou em frente a pia, encarando-se no espelho. Estava exausto. Parecia vinte anos mais velho. As rugas estavam mais marcadas, os olhos injetados e o rosto escurecido pela barba por fazer. Abriu o armário, pegou a navalha e testou o fio de corte no polegar. Estava bem afiado. Fechou a porta do armário, olhou fixamente para o espelho, elevou ligeiramente o queixo e passou a lâmina num corte horizontal fundo e preciso no pescoço. Enquanto agonizava, caído no chão de mármore, pensou consigo mesmo satisfeito: está tudo bem agora.


quarta-feira, 9 de outubro de 2013

O que preciso dizer

Qualquer coisa entre morrer e estar vivo, é como me sinto. Você vai chamar de clichê ou subjugar minha dor, eu sei como é. Aliás, você sabe bem como é. Você tem seu jeito de entrar na vida das pessoas, fazê-las gostarem de ti e depois abandoná-las sem mais nem menos. Depois, considera todos amantes do drama, fracos e exagerados. Mas você não é muito melhor que qualquer um desses.

Vive seus dias se fazendo de forte, se achando a dona da razão e sob controle das próprias emoções. Só que se esquece de que ninguém manda no coração. Pra se encaixar no seu modo de ver as coisas, você não pode controlar a reação do seu cérebro frente a estímulos externos. Se os cientistas conhecem pouquíssimo do funcionamento de toda essa massa cinzenta aí dentro, por que acha que justo você teria aprendido, com a pouca idade que tem, a manipular todas as respostas da sua?

Talvez doa saber, mas você não é Deus. Não ache que simplesmente por dizer algumas palavras as coisas irão mudar, que o que eu sinto por você vai mudar. Sentimentos são mais complexos que isso. Não podemos desligar e ligar de novo quando for mais conveniente. Quisera eu que fosse assim, daí não precisaríamos passar por isso. Deus, como eu queria poder religar o que sentia por mim.


Você não tem noção de como tenho pensado em você nesses dias. Mesmo não tendo nada físico seu pra guardar, você me assombra. E o que me assusta mais é que eu gosto disso. Eu não quero deixar de pensar em você, não quero te esquecer. Não quero que sua lembrança vá embora como se nunca tivéssemos nos conhecido. Eu não quero perder o que ainda tenho de você. Eu quero ter mais. Eu prefiro viver sabendo que tive você e perdi, do que nunca ter tido você comigo. Mesmo que isso nunca mais se repita, preciso lembrar que um dia fui a razão do seu sorriso.

O que tenho pra dizer mesmo é que tudo que eu mais quero agora é estar com você. E, se você sente ao menos um pouco a minha falta, se em alguma hora do seu dia se lembra do tempo que passamos juntos e se sente bem com isso, me deixe mostrar que posso fazer bem melhor. Sei que não posso fazer você me amar, mas eu sei que posso te fazer feliz. Então me deixe pelo menos tentar. Não haverá um só dia em que não estarei feliz por estar contigo e que eu não me esforce pra te fazer sentir o mesmo. Não me deixe com o peso de saber o que poderia ter sido e não tê-lo vivido.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Carta aberta à amiga que um dia existiu

Por onde será que tem andado? Que rumos sua vida levou? Se vive com os pais ainda na mesma casa, ou casou-se e teve uma filha. Pensei ter te visto há algumas semanas, sentada no último banco da condução. Devia ser mesmo você. Quando passei a catraca e te vi, também olhando pra mim, estremeci surpresa. Susto acho que é a palavra mais adequada.

Faz anos desde a última vez, mas não gosto de me lembrar dela. Se quer saber, gosto de lembrar como éramos antes de toda aquela confusão. Quando nos conhecemos e éramos as mais inteligentes da classe. Sempre queridas pelos professores e com as melhores notas de provas e trabalhos. Você sempre foi mais aplicada, eu tinha sorte. Você ganhava a medalha de melhor aluna, e eu o respeito dos colegas.

Gosto de lembrar-me como, mesmo em escolas diferentes, nos encontrávamos ao menos uma vez por semana pra nos colocar a par dos acontecimentos: o primeiro beijo, o primeiro amor, as descobertas que vinham com isso. Você sempre parecia reluzente ao me contar suas histórias e empolgada em ouvir as minhas. Minhas aventuras de final de semana. Você costumava rir e me rotular de malvada por esnobar uns garotos. Passávamos horas assim.

Trocamos livros, presentes, segredos. Tínhamos até o projeto de morarmos “sozinhas juntas” um dia. Ficávamos mirabolando os futuros dias cheios e divertidos que teríamos na nossa casa. Desde festas às sextas-feiras a namorados passando a noite. O carro que dividiríamos e a carona que daríamos a todos os amigos a caminho da balada. Ia ser incrível e eu mal podia esperar pra viver tudo aquilo, mas sequer chegamos perto.

Eu não sei o que pode ter acontecido e te levado a agir daquela forma comigo. O que, de tão grave, te fez esquecer ou passar por cima de nossa cumplicidade a ponto de me magoar tanto.  Ouvi diversas teorias a respeito, acredite, de parentes e amigos. Especulavam ciúme, inveja, até loucura (e essa era a mais repetida). Eu as ouvia, ponderava e concordava com algumas de tão machucada que estava. Mas no meu íntimo, ainda hoje, renego todas elas. Não consigo acreditar que você seja uma pessoa má.

Quis te dizer isso aquele dia no ônibus. Naqueles segundos que fiquei de pé, observando que não mudara quase nada nesses anos, a não ser por parecer mais madura – e triste. Quis te dizer que não guardo ressentimento ou rancor algum sobre o que passou. Te dar um abraço e perguntar se estava bem. Não queria saber mais seus motivos, já te desculpei há muito tempo, mas queria te ouvir pedir desculpas pra acabarmos logo com tudo isso.

Quis e pensei em fazer tanta coisa e nada fiz. Limitei-me a sentar num dos bancos da frente e relembrar, assustada demais pra andar até o fim do corredor.  Quando enfim tomei coragem para olhar pra trás, você já havia saltado e levado consigo minha esperança de resolução. Fiquei desapontada por um momento e aliviada em seguida. Está bem assim. Tive uma amizade, aprendi muito com ela e vou guardá-la para sempre comigo. Tive a oportunidade de ver que está seguindo sua vida e vou fazer exatamente o mesmo.


Felicidades, de sua amiga de Vicente Amato.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Minha casa


Conservo a pintura da fachada e abafo os barulhos internos, para não perturbar os vizinhos. Ora, um bom isolamento acústico garante a privacidade e mantém as aparências. Ninguém quer ou precisa saber em que pé está a bagunça ali dentro.

Vezenquando, abro a janela para entrar luz e renovar o ar. Tomando cuidado de não as deixar abertas por muito tempo. Alguém pode olhar demais e notar desarranjos. Um porta-retratos virado, papéis amontoados, um dominó desfalcado ou um quebra-cabeça interrompido. Um lençol cobrindo a roupa suja – que um dia hei de lavar.

É preciso estar atenta. Se desconfio de um olhar espichado apresso-me a trancar as janelas. Imagine só que vexame descobrirem que sou falha em administrar o lugar que habito. Melhor não arriscar.

As vidraças estão sempre limpas e o carpete “bem-vindo” aprumado e convidativo. Há também um confortável jogo de cadeiras na varanda, perfeito para jogar conversa fora e nada mais. Ofereço o exterior, aqui dentro só a mim cabe.

Aqui dentro, me expresso entre os limites do concreto. Liberdade medida e autocensurada.

Os móveis ocupam o quarto, souvenires caem na estante em companhia a fotos ignoradas. Música vívida sai do stereo em contraste ao silêncio mórbido do cômodo. Paredes pálidas, escritos empoeirados, ruídos medíocres. Onde outrora havia arte, cantos inexpressivos. Tudo coberto por luz branca e gélida. Um conjunto vazio.

Parece inconcebível, mas depois que se acostuma, é confortável ser assim.



segunda-feira, 29 de abril de 2013

Caribé

Sob o olhar de Kurt Cobain
Meus olhos cortam as sombras
Do meu quarto sem janelas
Do meu livro de novelas
Ao som da Jane Fonda

Sob a luz do sol de março
Gasto a sola do all star preto
Marco as costas em nadador
Sobre pedras e ladrilhos cor
Por anéis, cigarros e segredos

Pela orla do Velho Chico
Sob abraços semi-conhecidos
De semi-leigos da história
Que se dissipam na memória
Aprecio meu tempo perdido

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05 de Março de 2010, Petrolina - PE
Quando eu sabia ainda menos.


Não penso, logo sinto

Tua mão assume minha pele, percorre minhas curvas.  Desarruma-me os cabelos - e o juízo. Redesenha minhas pernas, me aperta a nuca e me puxa pra perto. E me invade. E me une a ti de tal forma que deixamos de ser dois. Lança-se mão de toda racionalidade. Cabeça vazia, peito cheio. Que sou eu se não uma extensão do sentir? Do tato, do desejo, do límbico? Que dirá do reptílico? Te bebo, me tomas. Nos temos. Que queremos mais? Então me sente, me devora e ignora toda regra da boa escrita e bom cidadão. Te prendo em mim e não largo.  - Não penso, logo sinto.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Ele


Eu o amo, sabe? Não, não tem como você saber. Acredito que ninguém mais tenha tido a sorte de chegar ao nível do que sinto hoje. Uns dizem que é dependência, mas eu não ligo. Por que me importaria em depender de ficar do lado de alguém quando, na verdade, estar lá é tudo o que eu quero? Se eu me sinto satisfeita, preenchida, extasiada? Se a presença dele me faz o bem que nenhuma outra coisa pode me fazer? Não existe nada que traga a felicidade que ele me traz.

Quando eu acordo, meu primeiro pensamento é se ele está bem, se dormiu bem, se está de mau ou bom humor. Eu programo minha rotina de modo que coincida com a dele. Para que eu possa almoçar e jantar nos mesmos horários que ele. Me levanto cedo pra que eu possa vê-lo sair e desejar um bom dia. Para que o sinta cada vez mais perto de mim.

Eu demonstro o meu amor o tempo todo. Por cartas, bilhetes, mensagens. Gosto que saiba que tem alguém que se importa muito e que mataria por ele se necessário. Quero que tenha certeza que está sendo amado tanto quanto me ama. Ele não demonstra da mesma forma, claro. Tem seu próprio jeito de me amar, e eu também gosto desse.

Ele é tímido e muito atarefado, não tem muito tempo para essas manifestações de afeto, mas quando o faz é inesquecível. Sempre me emociono. Sou meio boba, sabe? Aliás, com ele estou sempre boba. Ele me faz perder o chão, as palavras, o ar. Quando está por perto, minhas pernas ficam bambas e me sinto longe de todo e qualquer problema, porque estou segura ao seu lado.

Meu amor por ele não se abala. E é eterno, eu sei. Mesmo com os problemas que vimos tendo, nós vamos nos acertar e tudo ficará bem novamente. Por algum motivo, ultimamente ele vem se afastando de mim, mas sei que reverteremos essa nossa crise. Todo casal passa por uma fase difícil, em que não têm certeza se devem realmente ficar juntos. Bom, eu tenho certeza suficiente por nós dois e vou provar que estou certa. Ele só está um pouco confuso, com medo de se envolver mais. Homens têm dessas coisas.

Nós tivemos sim uma discussão. Casais em crise costumam brigar, é normal. Eu me alterei, confesso. Mas ele estava dizendo coisas sem sentido, não havia verdade nas palavras que saiam de sua boca. Acho que estava tão assustado com o que sente que inventou motivos pra fugir de si mesmo. Chegou ao ponto de negar nosso amor.

Você sabe o quanto isso dói? O quanto machuca se entregar tanto a uma pessoa e ela desdenhar teus sentimentos? Você sabe como é ter seu amor rejeitado? Você se sente diminuída, desvalorizada, humilhada. Cria-se uma ferida grande demais para conter. Eu estava sangrando por dentro e enfurecida por ele estar mentindo pra mim daquele modo. Eu tinha de fazê-lo parar, mas não conseguiria sem que o fizesse sentir a mesma dor que eu estava sentindo. Ele precisava saber, entende?

Eu não sei bem como fiz, não me lembro. Estava cega pela mágoa que ele me causou. Mas ao vê-lo desacordado eu voltei a mim. Mais calma pude compreender que era como uma criança, apavorado com tudo o que estava sentindo. Eu já o perdoei. As enfermeiras disseram que irá se recuperar e, quando voltar, eu estarei aqui. Esperando por ele. Meus amigos, e os dele também, estão com muito ciúme e ficam mentindo pra mim, inventando histórias a respeito de nós dois. Eu os perdoo também. Em meu coração não há espaço pra ódio, rancor ou sentimentos ruins, apenas para o amor que sinto por ele. E não vou deixá-lo ir. Nunca.
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Inspirado no filme "A la folie... pas du tou"

sábado, 13 de abril de 2013

irônico, não?



Alguma vez já se sentiu tão feliz a ponto de ter medo? As coisas melhoram instantaneamente e permanecem assim sem que você consiga encontrar um motivo lógico para aquilo ter acontecido. Você tem o mesmo emprego, mesma casa, tem os mesmos amigos, mora na mesma vizinhança de sempre e simplesmente tudo passa a ter um brilho diferente.

Você acorda pela manhã e não se importa do despertador ter cortado a melhor parte do sonho porque sente que, na verdade, a melhor parte você pode começar a fazer agora, na vida real. O céu está mais azul, as pessoas estão mais bonitas e os pets estão encantadores. Você deseja bom dia pro sol porque, subitamente, passou a enxergar beleza na natureza e nos detalhes do seu dia.

Sua rotina não tem mais o peso de sempre, virou prazer. Suas expectativas a respeito do mundo tornaram-se incomparavelmente melhores. É como se o tempo passasse num ritmo diferente e você pudesse notar a graça de estar vivo. Você se sente feliz quase que apenas pelo fato de existir. E, quando se dá conta, percebe o quão assustador isso é.

Digo, não há nada de errado em estar contente, o que parece errado é não saber bem o que te levou a isso. Algo sustenta sua felicidade e não há como impedi-lo de ir porque não se faz ideia do que seja tal coisa.

Não temos medo de ser felizes. Temos medo de perder a felicidade e não conseguir recuperá-la tão cedo ou, quem sabe, nunca mais. Não sabemos quão triste somos até experimentarmos o verdadeiro riso. E agora, cientes de nosso estado de felicidade, como lidar com a possibilidade iminente de perdê-lo?

Você começa a lutar contra um inimigo invisível. Passa estragar dias de sorriso com o receio infundado de ver o que tem ser destruído por algo inexistente. E acaba por desmoroná-lo por si mesmo. Irônico, não? Você não quer que acabe e se torna o próprio causador do fim.

Não, não há reviravolta dessa vez. É isso.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Tua ausência


Às vezes chego em casa e subo diretamente ao quarto, achando que te encontrarei deitada, assistindo TV. Abomino minha mente por me pregar tais peças. Como quando o gato derruba a louça na pia e eu imagino que você está de volta à cozinha, preparando sua especialidade e único prato “macarrão ao molho rosa”. Você nunca me contou como consegue deixá-lo dessa cor e eu não te encontro mais lá. Apenas tua ausência é o que se apresenta a mim, todos os dias, em todos os cantos da casa.

Eu nunca entendi bem a definição de vazio. Achava saber quando lia esses novos autores ou ouvia O Livro dos Dias, mas só realmente soube após te perder. Descobri o quanto o vazio preenche o vago e nos deixa sem alternativa, senão encará-lo, dia após dia.

Eu não sabia que o nada podia ser grande assim.


Refaço sempre teu caminho costumeiro, visito teu escritório. Leio teus cadernos de novo e de novo. Tentativas de te sentir perto ou ouvir tua voz novamente. Escuto suas músicas favoritas para me avivar à memória o teu canto descompassado e tua desconstrução da dança. Hoje, de longe, o mais belo show que vi.

À noite, antes de dormir, sucumbo ao peso que sustentei ao longo das horas, inventando uma força que já não existe. Deixo sangrar. O pesar sincero machuca ainda menos que o mais belo riso imposto. Então choro. E, em algum momento antes do sono, em meu inconsciente debilitado, sei que você vem me confortar. E é exatamente isso que me faz levantar pela manhã. Só você pode.

Ignorando a todos os conselhos vindos de quem não entende a minha dor, vivo em tua morte. Porque é tudo o que me deixou, e, se tivesse de viver sem nada teu, então assim eu morreria.

Eles não sabem o que dizem.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Ensaio

Recobrando à minha essência,
talvez tola e débil,
tomo do lápis e papel deixados.
Outrora sagrados,
sutilmente reassumem seu lugar
Pedem licença para voltar
à intimidade que sufoquei.
Ignorando não-sei-quê de mim
que sofri a perda sem notá-lo ir.
Me resigno a deixar fluir
Com um afago terno do retorno tardio.
Lentamente sinto se esvair
O pesar que me assolava peito
Deixa-me, escorre-me entre os dedos
e deita-se dentre essas linhas.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Chá&Café


Pare e observe. Eu não aguento isso. Por que você não enxerga que estou aqui me corroendo? Você sabe, eu me faço de forte. Finjo que não me importo, que não sinto falta de te olhar nos olhos. Mas achei que ficasse meio óbvio que estou desconfortável quando resolvo ouvir música no segundo em que você pega um livro. Quando respondo monossilabicamente todas as suas tentativas de conversa casual. Quando eu corro pra janela só pra ver você descendo a rua depois que bate a porta. Quando imploro muda pra que você coloque um fim nisso tudo. Quando... Até quando? Esses não somos nós.

Quando eu ouço música você levanta e me tira pra dançar. Quando você está fatigado, eu te abraço e digo como tudo vai ficar bem. Quando estou emburrada, você me faz rir dizendo que fico linda ressaltando minhas rugas. Quando você lê, eu te trago café e me recosto no seu ombro. Quando eu chego, você me traz chá e deita comigo no sofá. Quando você sai para o trabalho, eu te levo até a porta e me despeço com um beijo.  Você está vendo? Esses somos nós. Somos melodramáticos e felizes – ou éramos.

Agora somos qualquer coisa muito distante de “felizes”. Você fica sentado na poltrona, tomando um café horrível que você mesmo fez. Pega seu livro de finanças e finge estar absorto, mas eu sei que o franzido na sua testa não é de concentração. Quase posso ouvir seus pensamentos de tão alto que gritam em sua mente. Gostaria de poder ouvir. Sei que está pensando em nós e em como a cada dia o clima fica mais pesado, beirando o insustentável. Nossa descrença é quase palpável pairando no ar. Gostaria mesmo de poder ouvir seus pensamentos. Assim saberia se pra você a solução é consertar ou jogar fora. Adquirir uma nova. Só em pensar me vejo nervosa.

Nervosa. Nervosa define bem o que tenho sido ultimamente. Estou sempre a flor da pele e a culpa é sua/nossa. Qualquer um lê no meu rosto como a sua distância presente me faz mal. Cada poro da minha pele exala frustração. E se isso não basta para enxergarem, minhas olheiras denunciam que há algo de errado. Como consegue dormir? Por mais que eu faça, não consigo. Passo a noite velando teu sono, vendo teu peito subir e descer. Me perguntando quando foi que começamos a nos distanciar, se é que realmente há um evento exato no tempo que inaugurou o início do nosso fim. Se foi quando eu arranhei o seu carro ou você o meu disco. O que foi que arranhou a nossa existência perfeita? Não, não estou exagerando. Nós éramos perfeitos. Ao menos você sempre foi pra mim.

Eu tenho uma ideia. Eu descarto meu orgulho, você o seu senso de justiça. Fiquemos bem. Vamos fingir que nada aconteceu. Você nunca gritou comigo, eu nunca te empurrei. Tudo isso não passou de um sonho ruim. Quando chegar, eu faço chá e um café fresquinho só pra você. Você me conta como foi seu dia e o quanto sentiu vontade de me ligar no meio da reunião pra contar como é hilário o Siqueira praticando seu “portunhol” com os sócios. E então você me beija e diz que está na hora de subirmos pro nosso quarto pra não dormirmos. Pra matar essa falta que eu estou de você. Ou pra levarmos o colchão pra sala, pedir pizza e ficarmos vendo filmes repetidos que nunca enjoamos.

Eu aceito a ideia. Você podia aceitar também. Nós somos passíveis de conserto. Porque temos muito a conviver e aprender um sobre o outro. Eu vou ver esse seu topete perder volume e você vai me ver perder certas curvas. E vamos nos amar ainda mais pra compensar essa perda. Comecemos de novo, nem precisa falar nada. Façamos um acordo calado. É só chegar e pegar o que ainda é seu e será por muito tempo.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Perfil


Quero um amor maduro, do tipo que se sabe as fraquezas e limitações. Um amor real, sem fantasia. Não quero que chame a mim de Julieta e eu a você de Romeu. Quero um amor que não invente pseudônimos e tenha completa ciência do que é. Pra ser simplesmente José e Maria, completos em si. E verdadeiros.  Porque o amor pode até ser sonho, mas ele só existe e dá certo quando estamos acordados. Não dá pra bancar o sonâmbulo e andar por aí fingindo perfeição.  Quero um amor de coração aberto, mas, sobretudo, os olhos e a mente. 


domingo, 2 de dezembro de 2012

Meu último sobre você



Eu tento. Começo várias frases de impacto e de repente travo. Ficam meus dedos pousados em cima do teclado esperando pela volta de uma palavra que traduza os meus pensamentos tão seus. Mas ela não vem. Deveria ver meu desktop. Ele é só um monte de rascunhos do Word de no máximo três linhas. Tão confusos que nem eu mesma saberia te dizer o que senti quando os redigi. E juntos devem fazer ainda menos sentido.

Sei lá. Te transcrevo já há tanto tempo que acho que desaprendi a usar qualquer outro tema. Falar sobre natureza, música, livros ou até mesmo sobre novos amores não seria sincero. Talvez eu tente escrever sobre o som dos Bee Gees que vaza da casa do meu vizinho. Cotidiano – ou, em outras palavras, minha vida chata sem você.

Olha só você aqui de novo. É um vício, um mau hábito. E, como você sabe, maus hábitos sempre voltam. Esse hábito assim mal vindo, mas muito bem instalado. Hábito pouco cordial que só ocupa espaço e já não tem mais serventia.

Quer saber? Te exorcizo de mim. Você já não dá poema, crônica, música, conto ou prosa. Nem versinho infantil de quatro estrofes ou cantiga de ciranda. Você não é mais matéria prima de nada bonito. Porque eu já suguei tudo que tinha pra sugar do que sobrou de você nos meus dias. Eu excedi minha cota de você e a caneta já tinha percebido isso há muito tempo. Só faltava eu. Mas agora que me dei conta me despeço com pesar e sem remorso.

Adeus inspiração. 

sábado, 3 de novembro de 2012

o que li num estranho na rua


Desaprendeu a viver. Tem os olhos perdidos e a maturidade emocional de quem perdeu alguém que ama, sem nunca ter amado. Não conversa por nada ter mais a dizer. Por não querer repetir o que todos já disseram. Nem falar de assuntos sem alma. Se encontra já sem espírito de fé. Se chora, é por instinto. Se gosta, é porque aprendeu que devia ser assim. Convenção social. Convive por não ter escolha ou por preguiça de escolher. Beija e abraça mecanicamente, como quem retribui o “bom dia” ao vendedor. Sussurra pro vento, ora pra um deus que não crê. Comove-se por convencimento, sem compaixão. Se doa sem dor. Não se dá. Não se vê. Não se ouve. Desaprendeu a sentir e receia não mais querer aprender.


...


Só vem.
Não marque hora, dia
Lugar ou flor na lapela
Não se marque.
Não se guarde.
Pelo o que não disser
Não se amargue.
Eu não vou.
Não me aguarde.
Então vem.
Enquanto o futuro não assusta
E o passado não assombra.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

ideia suicida

A ideia está lá. Martelando em sua cabeça a solução para todos as suas angústias. Mas ela não a aceita, não pode. É cruel, é estúpido, é inconcebível, é inaceitável. Rola na cama, toma banhos de horas, dá voltas no apartamento. Nem se lembra quando foi a última vez que vira a rua. Não se lembra a última vez que comera. Sabia que emagrecera muito e que deveria alimentar-se  antes que a inanição se encarregasse de pôr um fim em tudo. Ela não consegue. Não sente gosto, cheiro. Sua garganta se fechara a exemplo de seu coração. O café acabara, assim como os cigarros e seu armário de destilados beira a escassez. Logo não terá mais nada para distrai-la. Até a amada coleção de seus autores prediletos nada mais dizem. Desligara o telefone. Não por não querer falar com alguém, mas por medo de que ele não tocasse. Prefere a dúvida. Escreve. Escreve por horas, incessantemente. Registra tudo que lhe vem a mente. Talvez na esperança de que alguém invada na madrugada, olhe os escritos e a conforte, diga que a compreende e que tudo ficará bem.


Em uma manhã acordou cedo, abriu as janelas, religou o telefone, organizou a casa e deitou-se no sofá - onde passou toda a tarde. Ao cair da noite notou que não ouvira o telefone ou campainha tocarem. Sequer uma batida na porta ou passos no corredor. Notou que ninguém leu o que escrevera e que, se o tivessem feito, não entenderiam. Nada. Trancou as portas e janelas novamente e encheu a banheira. Desta vez não escrevera suas ideias. Não deixou carta.

sábado, 13 de outubro de 2012

argila


 Não posso mais. Viver seu sonho não é o que eu tinha planejado pra mim. Ainda menos um sonho assim, sem glamour. Que eu não tenho papel sequer de coadjuvante. Mas você, você tem todos os papéis.
Eu sou só sua estátua de argila. Você me molda como lhe convém. Imagina que sou mármore, bronze. Idealiza o material que não tem. E o ama, desesperadamente o ama. Juras e promessas de um amor inabalável supostamente destinado a mim. Mas eu não sou bronze. E não importa quantas vezes eu tente me formar e te convencer que sou argila, vermelha, material pouco nobre, mas muito versátil. Você ignora.
Porque no seu sonho não cabem palavras de outrem, ainda que o queira manter dentro dele.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

visita-me


Senta aqui do meu lado. Ou fica aí mesmo. O importante é que você me ouça. Ou não ouça, mas fique aqui, nessa sala. Você nem precisa comentar o que eu disser. É que eu estive pensando umas coisas aqui comigo e deu vontade de expor. Andei pensando sobre mim, claro, mas ainda mais sobre você e eu. Sobre como estou sempre te sugando até a última gota de afeto, de desejo, de atenção. Sobre como estou sempre solicitando que você se doe, que ame mais. Você faz o possível, eu sei. Você vem sempre que pode e traz flores e chocolate. E tem chovido tanto esses dias, e São Paulo já é um caos sem a chuva, com ela então. E você tem me ligado nesses dias chuvosos em que o trânsito não te permite chegar. Mas não serve, não é igual. Quero ver teu rosto com aquela expressão incomodada por eu ter te feito atravessar a cidade. Essa expressão que se desfaz com o primeiro beijo quente que te dou.  Quero te ver chegar, largar as chaves na mesa e vir me abraçar. Quero sentir teu perfume mesmo ele estando misturado a cigarros e fumaça de escapamento. Porque esse é você. E te quero por completo, todos os dias. Porque não vai ter mais ninguém que vai me olhar carinhosamente enquanto desafino I Will Always Love You. Ou pelo menos alguém que eu acredite que está mesmo gostando. Porque não vai ter mais ninguém que eu ame tanto detestar o gosto musical. E você se veste mal e comete erros gramaticais às vezes. Mas isso te torna único. E se você é único, como poderei te substituir, entende? O que eu queria mesmo dizer é que estou com um medo sem tamanho de você se afastar. E que vou te requisitar sempre mais e mais. Eu sou insatisfeita. Tenho uma sede enorme do que me faz bem. Você me faz bem. 

sábado, 15 de setembro de 2012

chamada a cobrar-se



- Alô?
- Oi.
- Quem é?
- Tanto tempo sem nos falarmos que se esqueceu da minha voz.
- Não acredito. Você!? Como vão as coisas??
- Vão bem. Muito bem até. Esse ano concluo minha faculdade e vão me efetivar no estágio. Legal, né?
- Muito! Meus parabéns. Fico feliz que esteja bem.
- Obrigado. Me surpreende ainda se importar.
- Não diga isso.. Sempre te quis bem e por perto. Você que não quis.
- Ta, ta. Passou, esquece, certo? E você, como está? Vocês?
- Bem. Ótimos.
- Só?
- Ora, estamos bem. Fazendo planos.
- hmm...planos?
- Sim. Tem certeza de que quer falar sobre isso?
- E por que não? Somos amigos agora. Gosto de saber da sua vida.
- Não sei. É que não sei em que pé você e eu estamos. Não quero te chatear. Sem querer parecer presunçosa, não sei se te dói falar sobre isso.
- Não se preocupe, não vai. Se te conforta, estou saindo com alguém. Nada sério ainda, mas ela é legal.
- Bom! Que bom! Você devia mesmo namorar.
- Devia, né?
- Sim! Aliás, quero conhecê-la. Traga-a aqui em casa. Programa de casal, o que acha?
- Acho que não é uma boa ideia. Não é nada sério, lembra? Não quero apressar as coisas. Vocês se dariam bem, mas é melhor não, por enquanto.
- Certo. Tudo bem, então. Mas não a deixe escapar, sim? Se ela é assim tão legal..
- Pare. Por favor.
- Parar com o que?
- De me empurrar pra outro relacionamento. Não precisa fazer isso. Não vou atrapalhar o de vocês. Talvez eu não devesse ter ligado.
- Não, me desculpe. É que a cena que protagonizou na última vez em que nos vimos ainda está na minha cabeça. Não consigo desvincular aquela imagem de você. Me desculpe, acho ótimo que tenha superado e... Me desculpe de novo. Fui presunçosa.
- Tudo bem. Agora está com vergonha, não está?
- Morrendo.
- Imagino. Lembro de você vermelha nessas situações. Você detesta estar errada.
- É, detesto! Me conhece bem.
- Bom, foram quase dois anos. É quase inevitável.
- É...
 (...)
- E os planos?
- Planos?
- Sim, os planos que disse estarem fazendo.
- Ah, sim. Nossos planos.
 Dentro de algumas semanas pretendo me mudar pra casa dele e...
- Mas já?
- Sim. Já estamos há oito meses juntos e tem ficado cada vez mais sério.
- Não acha precipitado?
- Por que seria?
- Sei lá. Só acho que talvez não seja tempo suficiente para se conhecer alguém. Só estou preocupado com sua segurança.
- Não precisa. Ele é uma cara legal. E, além do mais, não vou vender meu apartamento, só aluga-lo. Se algo der errado, volto atrás.
- Se você acha. Te desejo sorte e toda a felicidade do mundo!
- Obrigada. Me deseje amor, que o resto vem.
- Amor então. Em abundância.
- Pra você também.
- Obrigado. Bem, acho que estou perto dele. E mesmo que eu esteja, que um dia me case e você precise de mim pra te livrar de algum babaca que te atormentar, é só chamar, viu?
- Vi. Valeu. Chamarei sim, mas espero não precisar.
- Espero que não também.
- Ah, pretendo sair do país também.
- E por quê?
- Bem, vamos morar juntos e ele está prestes a ser promovido. Passará mais tempo fora que aqui. Decidimos que seria melhor assim.
- E o seu trabalho no jornal?
- Ele vai me ajudar a conseguir outro por lá.
- Então é mesmo sério? Você o ama perdidamente?
- Ah...bem, é claro. Mas que pergunta! Amo sim.
- Legal.
- Legal.
(...)
- Escuta, preciso desligar. Ele vem jantar aqui hoje e eu vou cozinhar.
- Sério? O que vai preparar?
- Não sei ainda. Olha, preciso mesmo desligar.
- Ok. Foi bom falar contigo de novo. Até qualquer outro dia.
- Até. Se cuida.

     Promoção para o exterior? Não podia competir com isso, definitivamente.
     Olhou os livros de química empoeirados na estante. Abandonados na mesma posição desde o dia em que largara a faculdade. Sublinhou alguns números após uma olhada rápida nos classificados e pousou o jornal ao lado do copo de vodka quase seco. Tomou banho, barbeou-se, se vestiu e perfumou. Ia sair. Havia ao menos uma verdade naquela ligação: devia mesmo arranjar uma namorada.

sábado, 1 de setembro de 2012

não estou



De repente ficou cheio demais aqui. Não que não houvesse pessoas aqui antes, eu só não tinha reparado. Eu estava escondida dentro de mim. Mas por que mesmo eu saí? Não me lembro. Na realidade, não me lembro mais de quase nada. Eu costumava ignorar a toda essa gente, mas parece ao contrário agora. Ou sou eu que ignoro o fato de estar em meio a elas? Bom, faz de conta que são elas. Fica mais fácil assim, colocando a culpa nos outros. Enfim, hoje não estou querendo brincar de ser quem não sou. Essa brincadeira só funciona quando estou bêbada. Quem sabe um outro dia, depois da folga do meu fígado.
É impressionante como reparam que não estou aqui.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

marcos e maria



Marcos Moreira, desde menino, morava em Maresias.
Mesmo na maioridade, ainda meio moleque,
Mergulhava no mar indómito, muito amostrado,
Pra chamar o olhar feminino.
E as meninas amavam.
Principalmente Maria
Que se maquiava e punha o melhor maiô.
Mas Marcos nem ligava
Maria é menina mimada, dizia, Não é pra mim.
Almejo mulheres como Marylin Moroe.
E mangava da moça.
Ela, magoada, saia amuada.
“Mas Marcos há de me querer namorar e eu não mais!”.
Em março, Marcos mudou-se para Macapá.
Em menos meses que o imaginado
Voltou a Maresias e viu Maria
Já mulher formada e formosa.
Maroto, foi mostrar-se homem mudado.
E ela mostrou-lhe a aliança de diamante e ouro maciço.
Agora era amigada com Aroldo Alves, o arquiteto.
Habitava na Alameda Antonio de Assis
E ia de avião à Austrália, África, Alemanha, Alpes e Argentina.
É, Marcos. Mudam o mundo e a menina.

sábado, 25 de agosto de 2012

3 por 10


O menino cresceu alto e forte.
Feição imponente, voz de locutor.
Infelicidade. Vítima da própria sorte,
Ele agora vende bala no metrô.

ponto


Se me pedir, eu espero. Espero mesmo. Talvez não sozinha. Relação vazia e nada mais. Diga que não pode agora. Que está com alguém e esse alguém morreria se o largasse agora. Diga que te ameaçam homicídio. Diga que está atarefado, focado na carreira, que não pode ou não quer se envolver agora. Peça pra eu te desejar em segredo, calada. Peça pra que eu te guarde fingindo indiferença. Ou peça pra que eu vá. Pra que te deixe em paz. Diga que não me quer por perto. Que não há próximos capítulos nessa história. Que, sinceramente, fui um bom passatempo. Ou que me amou demais e agora acabou como um poço que seca. Diga que quer me ver mais duas ou três noites e então fim. Ou me peça pra que te espere. Mas, por favor, diga algo. Coloque um ponto final ou reticências. Não me deixe aqui assim, desiludida e esperançosa, com a sua interrogação.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

sessenta minutos


Chove, não chove.
Vai chover amanhã. Talvez faça sol.
 Talvez o meu pai venha, talvez não volte.
Talvez eu aprenda, ou só ignore.
As elipses formadas na sombra.
Na rede, debaixo da árvore
Do rochedo.
Qualquer coisa
Sobre caos e medo.
Preguiça de rimar, de pensar.
Apetite do  nada.
Fardo que não pesa
Nem incomoda, na verdade.
Joguei fora o calendário.
E umas fotos reveladas.
Outras eu só deletei
Tentando esquecer a idade.
E minha memória quando volta?
Diz aí, doutor, que eu to bem.
Só estou brincando de soltar palavras.
Ver o que sai depois de juntas.
Misticismo infantil, metido a besta.
Fica assim, então.
Nosso tempo acabou.
A gente se vê próxima sexta.
Não, ninguém vai morrer não.
Semana que vem eu te explico
Se der. Se eu recordar.
Preciso me lembrar que não somos amigos.
O que somos mesmo?
Ah, eu sou chuva, pode ser?
Hoje eu chovo, ou não chovo.
Semana que vem, mesmo horário, eu volto
Ou talvez não.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

desculpas


Escuta. Você precisa me ouvir. Não pode simplesmente decidir que acabou e virar as costas sem ao menos me dar uma chance de me explicar. Eu senti tanto a sua falta. Eu não sei mais ficar sozinho. Vamos, não pode ser o fim agora. E tudo o que já vivemos? Você não pode ignorar o fato de que fomos felizes, de que somos felizes juntos. Essas coisas acontecem, mas temos de mostrar a todos que nosso amor é maior que isso. Que nós dois somos mais importantes que isso. Vem cá, sente-se ao meu lado. Não posso acreditar que não sinta minha falta. Seja mais tolerante, sim? Não vai acontecer de novo. Aquele dia eu não estava em mim. Os caras chegaram aqui com cerveja e me arrastaram pra lá. Eu sei que se não tivesse bebido não aconteceria. Eu juro que não a procurei, ela me provocou. Poxa, eu sou homem. Tente entender o meu lado. Você foi pra tão longe e demorou tanto. Não, não. Não estou colocando a culpa em você. Me ouça. Tudo bem, você está certa. Esqueça o que eu disse. Não, não vá embora. Ainda precisamos conversar. Não atravesse essa porta, por favor. Volte aqui. Me desculpe. Me desculpe por essas frases feitas e pouco sinceras. Por favor, olha pra mim. Sei que não estou fazendo sentido. É que a possibilidade de te perder me deixa apavorado, irracional. Me dê mais uma chance! Deixe-me começar de novo. Eu te amo tanto. Por favor, me perdoe. Eu te traí.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

lembranças, joplin e chardonnay II



Acho que vou trocar meu carro. Já cansei dele mesmo. Meu Opala Metálico Azul adquirido pra te impressionar, só porque amava a tal música. Eu era jovem e fodido e ainda assim economizei e o comprei por você. Deve ser verdade essa conversa de que deixamos de ser racionais quando apaixonados. Nos tornamos perfeitos idiotas. De qualquer forma, o Opala já não faz mais tanto sentido. Eu te vejo nele. Na verdade, ele transpira você. Mantê-lo é me torturar. De que me adianta lembrar teu sorriso se já não sou a razão dele? Quando nos deixou me privou do teu sorriso. E do meu. Sinto falta dele. Sinto falta de te ver dançando pela casa ao som de Dezesseis. Sinto falta de brigar contigo por mexer nos meus LPs. Sinto falta de te telefonar, mas não posso. Não vou. Admito que sinto sua falta. E que inferno é sentir isso. Vou me livrar do carro e do seu fantasma. Comprar outro esportivo. Quem sabe um Porche agora que posso? Sim, um porche. Assim teria uma desculpa pra te ligar e até fazer referência à Mercedes-Benz. Você ficaria feliz? Talvez percebesse que tenho ouvido sua Janis. Que tenho te ouvido. Que tenho me importado com essa ausência tão presente.

conselho de mãe



Dói um bocado no começo, e no meio. Vai machucar por um bom tempo na verdade. Mas há beleza aí. Nesse retiro que se faz em busca da própria paz de espírito. Nesse período que se está sentindo pena de si mesmo e esquecendo que se é importante para uma porção de pessoas. Faz bem. Não queira pular fases, nem também se estagnar. Há tempos já de diz que é necessário dar tempo ao tempo. O que se esquece de dizer é que o segundo "tempo" refere-se àquele de cada um.

Você vai chorar. Vai sentir ódio dele, dela, de si mesma até. Vai querer ficar na cama por dias. Outras vezes vai querer ver gente, conhecer lugares. E nesses lugares, vai encontrar algo que te lembre a sua dor e vai recomeçar o ciclo. Mas cada recomeço de ciclo trará uma lição adquirida no anterior. E as sensações deste já não serão tão intensas quantos as do primeiro.

Então aceite que acabou. De nada adianta negar a realidade. Ouça a música de vocês repetidas vezes até que ela perca o sentido. A ofereça a um amigo em um momento alegre. Ressignifique lugares, objetos, coisas que tenham feito juntos. E não se esqueça de queimar as cartas. Sem relê-las. Te traria falsas esperanças. E tudo que precisa agora é das verdadeiras.

Ignore, no entanto, o conselho mais tolo e mais falado. O de tentar esquecer. Não se apaga parte da vida assim. Isso roubaria o seu sentido. Não se esqueça de quem já te fez feliz, de quem adicionou tanto à sua história. Você aprendeu muito, não foi? Então por que excluir isso? Apenas filtre os pensamentos que te puxarem pra baixo. Esses você deleta. E o que sobrar daí, você molda e transforma numa das coisas mais preciosas que se pode ter e que nada levará de você: SABEDORIA.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

anfetamina


Quando abriu os olhos era como se já não fosse ele quem estava ali. Definitivamente ele não existia mais. Sua existência agora consistia em duas partes distintas. Sua mente eram duas. Uma lutava ferozmente pela sobrevivência e seguia mandando impulsos elétricos por todo seu corpo a fim de manter seus órgãos funcionando. A outra parte, quase que indiferente  a todo esforço produzido pela primeira, vasculhava o hipocampo em busca de fragmentos de memória que pudessem explicar como chegara àquele leito frio e branco.

Vasopressina, noradrenalina. Por que todas essas reposições? Ruídos externos e por vezes ininteligíveis invadiam e confundiam seu raciocínio. Não raciocinava mais. Seu pensamento se limitava a repetir as mesmas perguntas. O que aconteceu? Como vim parar aqui? E como um fino feixe de luz na escuridão, lhe surge a primeira lembrança.

Um sorriso, um riso infantil. Bruno? Sim, é o rosto de meu filho que me aparece gradativamente e minha ex-esposa segura sua mão. Mas por que Ana não está sorrindo? Tem as feições pesadas de preocupação.

- O que há, Ana?
- Não vá.
Acorde. Acorde!

Repentinamente volta a sala alva. Quem são todas essas cabeças que se projetam pela lateral da cama? Percorre o olhar por cada centímetro que lhe é possível observar. Tenta balbuciar palavras, dúvidas. Mas não o respondem, talvez sequer o ouçam. E essa dor que lhe assalta o peito agora?

-Desfibrilador, 17 bits. Alguém grita.

Agora é a voz de Ana que ouve. Está pedindo para que não viaje na caminhonete:

- Por que não? Qual o problema em viajar com ela?
- É muito velha. E além disso, acordei com aquele aperto no peito.
- Ana, fique tranquila. Não há com o que se preocupar.
- Não posso. Sabe que não consigo me acalmar quando tenho estes maus pressentimentos.
- Sim, eu sei. Sei também que nunca aconteceu nada, lembra?
- Nada tão grave você quer dizer. Ao menos fez a revisão?
- Fiz. E também viajei há pouco tempo com ela e estava perfeita. Além do mais, são pouquíssimos quilômetros até lá.
- Não sei. Viajar de noite assim... Prefiro que não vá. Mas sei que não posso te impedir, então, por favor, cuide do nosso filho.
- Pare de pensar negativo! Te telefono no caminho e assim que chegarmos, ok?

Sentiu os 17 bits de impulsos elétricos atravessarem seu corpo. Não saberia dizer qual dor era pior. Sentiu a realidade aproximar-se novamente. Podia sentir o líquido gelado da medicação subir por suas veias. Sentia-se amarrado, sufocado por todos aqueles fios que sustentavam seu pulso de vida. Todos aqueles rostos acima dele tinham os mesmos ares de preocupação do de Ana.

Achou bom tê-la visto de novo. Tê-la visto sorrir passando as instruções de bom comportamento para o garoto enquanto ele guardava a mochila do Ben10 na cabine. Sorriso esse que Bruno herdara e ele observara ao vê-lo falando ao celular com a mãe, instantes antes de pegarem a estrada estreita.

- Aumente a potência.

Maldita dor. Mas espere. Se eu estou aqui onde está meu filho? O que houve com ele? Por favor, que ele esteja bem... Onde ele está? Preciso vê-lo!

- Aumento elevado da frequência cardíaca.
- Ministre ivabradina.

Onde está meu filho? Onde?? Bruno?! Bruno!!

Olhou em volta. Ali estava ele, a seu lado. Pousou sua pequena mão na dele, sorrindo.

- Funções normalizadas.

 Como é bom te ver, Pequeno. Ainda mais assim, estando com a expressão tão tranquila. Serena, eu diria. Mas por que essa estranha roupa branca?

- Verifique a dilatação de pupila.

Outro feixe de luz.

Luz? Faróis! Os faróis de uma carreta que vem em zigue zague na estrada. Em nossa direção! Deus! O que ele está fazendo aqui?? Veículos grandes não podem pegar esse caminho! Quanto tempo até a colisão? Preciso tirar Bruno do carro. Saia, Bruno, saia. Solte o cinto! Por que o fecho não abre?? Por quê?!?!

Subitamente tudo se tornou claro. A música que ouviam no rádio do carro, o motorista de caminhão dopado, os planos para o final de semana e como sempre negligenciava os cintos de segurança na revisão. Lembrou-se que a vida que se passou diante de seus olhos não foi a dele, mas a de Bruno. Do seu Pequeno. Seu maior motivo de alegria desde aquele dia chuvoso na maternidade. Agora lembrava quem é, o que acontecera, o que fizera. E daria tudo o que tinha para esquecer novamente.